Enquanto o filme do Al Gore vai fazendo um sucesso necessário, despertando consciências, os brasileiros que moram no sudeste tem ainda mais motivos para ficarem aterrorizados. Isso porque temos a doce ilusão que pouca responsabilidade temos e quase nada podemos ou devemos fazer. Porém, ao contrário do que acreditamos, antes de afetar o mundo, a Amazônia afeta e muito o rico estado de São Paulo.
O desmatamento da Amazônia, principalmente através de queimadas, é feita para implantar campos de cultura de soja e para a criação extensiva de gado. O desmatamento acelerado, segundo os cientistas do INPE, causará um grande impacto para o clima de toda a América do Sul, transformando o Centro-Oeste e Sudeste do Brasil em um grande deserto. Isso porque grande parte das chuvas de São Paulo e Brasília é devido à umidade da Amazônia. As árvores retiram água do solo amazônico através de suas raízes de até 18 metros de profundidades e umedecem o ar pela transpiração das folhas. Sem floresta, sem umidade, sem chuvas no Sudeste.
Pesquisas mostram que o brasileiro é consciente dos perigos do aquecimento global e dos problemas ambientais geradas pelas queimadas. A mídia brasileira tem atuado bem na cobertura do evento. Porém, pouco se vê como resultado prático, pouca movimentação dos políticos em fazer alguma coisa.
O Protocolo de Kioto estabelece reduzir em 20% as emissões de CO2 até 2020. Precisamos estimular inicialmente a economia de energia, somente isso já reduziria em 15% as emissões. Temos tecnologia para isso, precisamos usar em grande escala. E temos as energias renováveis, como álcool e biodiesel. solar, eólica, gás de lixo. Precisamos substituir o carvão mineral, o petróleo e gás natural. Precisamos do Congresso, de leis que estimulem e isentem novas tecnologias renováveis, promovam eficiência e punam as não-renováveis.
O problema é vasto e conflitante com muitos interesses econômicos. Está na hora do brasileiro tomar medidas mais duras. Precisamos conscientizar os políticos da urgência da situação. O país precisa de leis duras, muito duras. Chega de multas, precisamos de leis que protejam as florestas como a lei que protege a fauna. A partir de 1988, a Lei n.º 7.653, tornou todos os crimes tipificados na Lei de Caça (Lei n.º 5.197 de 1967) como inafiançáveis.
Lembro-me, como se fosse hoje, muitos caipiras que caçavam para comer, foram presos sem direito a liberdade. Foi triste mas funcionou. A devastação de passarinhos que assistimos nos anos 70 acabou e, hoje, os vemos até nos grandes centros urbanos. Se quisermos proteger todo o Brasil abaixo da linha dos 20º, temos que prender do mesmo jeito. Do contrário, estaremos condenando quase cem milhões de brasileiros a morte lenta e dolorosa.
MÁRIO EUGÊNIO SATURNO é pesquisador tecnologista sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), professor do Instituto Municipal de Ensino Superior de Catanduva e congregado mariano
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