Moda e arte


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Os pensadores lecionam que vivemos em dois mundos. O mundo da natureza e o mundo da arte humana. O mundo da natureza é regido pela lei da causalidade, onde se "a" é, "b" é. Invariavelmente. O mundo da natureza é fatal e impossível de ser contornado. Trata-se do mundo do ser, ou seja, da essência, vocábulo que deriva do verbo ser do latim: "esse". Faz lembrar a resposta conceitual que Deus deu a Moisés no episódio das sarças ardentes: "Eu sou o que sou". O mundo da arte é aquele feito ou construído pelo homem, razão pela qual é identificado pelo adjetivo "artificial". O mundo do homem é contingente pois possível. O que não pode ser possível, ou seja, o impossível, não é do mundo do homem. Se "a" é, "b" deve ser. Ou seja "b" não é, mas deve ser do mundo dos homens. O direito, a arquitetura, a engenharia, a medicina, etc., fazem parte do mundo que o homem constrói ao lado do mundo da natureza. O mundo da natureza é o criado pelo homem. O mundo das artes é o criado pelos homens. No tempo de menino minha família morava na Praça Tiradentes. Isso se deu por volta de 1945, depois de Cristo. Subíamos a Visconde do Inhaúma para ir à missa de domingo. Na esquina da São Sebastião ficavam a antiga casa do padre e a Biblioteca Padre Euclides. A casa do padre foi então derrubada e erguido em seu lugar o prédio da Associação Comercial. No térreo foi instalada a Exposição Clipper, a primeira grande loja de departamentos de Ribeirão Preto. Até então era possível identificar a origem dos ribeirãopretanos pelas roupas que usavam. A Clipper passou a vender roupa à prestação. A moda tornou-se homogênea. Não foi possível aplicar a regra sem reconhecer exceções. Eu não tinha idade suficiente para registrar na memória tão profunda modificação. Uma mulher muito importante, que vivia ao meu lado, fez a descoberta. Pelo menos para mim: a moda como medida sociológica. A moda está intimamente ligada à pintura. Tive um amigo que se dedicava a projetar tecidos para a fábrica Bangu. Dizia que era especialista em panagem. Desenhava modelos para panos. No passado os homens eram nômades. Não tinham a noção da propriedade privada, experiência que foi revelada quando se tornou sedentário. No passado, os filhos da tribo eram de todos os pais. Num segundo momento o filho passou a ter um pai, uma mãe, uma casa, uma religião, um direito. Caminhou-se para a individualização das relações humanas. Há sinais que indicam uma marcha diferente. A civilização caminha do heterogêneo para o homogêneo. A mesma moda, o mesmo modismo, a mesma arte, o mesmo direito. Tudo isso começou em Ribeirão Preto com a inauguração da Clipper. Todos passamos a ser o mesmo homem. Ou caminhamos para ser. Os nossos gestos, os nossos falares, as nossas roupas, as nossas comidas são triturados pelos pétreos modelos do ordinário. A moda e a arte converteram-se em testemunhas eloqüentes e incompletas dos nossos tempos. SÉRGIO ROXO DA FONSECA é professor de Direito da Universi-dade COC e da Unesp/Franca.

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