Hip-hop na veia. ‘Turn the radio, blast your stereo, right’. O som toca alto pelos falantes, que são turbinados, como, de resto, todo o carro. É sábado e a curtição toma conta das ruas da cidade. O show acaba de começar. Lada a lado, um Celta 1.4, preto, e um Corsa 1.0, chumbo, esperam o semáforo verde.
O velocímetro marca 100 quilômetros por hora, mas é só a arrancada. Dá pra sentir o cheiro de pneu queimado na saída. Um olhar ao lado revela meio carro de vantagem. O Celta está na frente. Um sorriso, sem querer, sai pelo canto do lábio do piloto. A noite começou bem. Basta a polícia não atrapalhar.
150. O carro balança levemente. Não fosse rebaixado, seria difícil controlar o veículo. Rodas, pneus e a suspensão também precisam ser adaptados para suportar as altas velocidades. Não é difícil encontrar veículos tão baixos que parecem tocar o chão.
O corpo treme, o coração dispara. O acelerador vai até o osso. São 100, 200, 300 metros alucinantes. Não é possível definir a cor dos semáforos que ficam para trás. O oponente está lado a lado. É hora de usar ‘os brinquedinhos’.
Com uma das mãos segura o volante. A cada troca de marcha, o turbo funciona. A injeção extra de oxigênio na veia do motor tem efeito imediato. Em menos de dois segundos, o possante está a 180.
O oponente continua na cola, encostando o pára-choque na traseira e batendo de leve. 200. Com outro toque, que gira um pequeno cilindro, o motor recebe a mistura de oxigênio e nitrogênio e responde imediatamente. Seis segundos depois, o velocímetro já não consegue registrar as velocidade. 240 quilômetros, pelo menos.
A cena narrada acima, que poderia ter saído dos roteiros de Holiwood, é mais que uma criação literária. Ela acontece com freqüência em Franca e foi baseada exclusivamente em depoimentos de 16 rachadores consultados pelo Comércio. Ainda assim, fica longe de aproximar a realidade dos rachas do papel. ‘Não dá pra descrever. É 100% adrenalina’, diz Rodrigo*
Geralmente com idades entre 18 e 25 anos, os rachadores vêm de famílias com boas condições financeiras. Raramente trabalham. Dos 16 rapazes consultados, apenas quatro tem emprego fixo. De classe média, a maioria avassaladora é estudante e tem no pai a grande fonte de renda.
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Além de perigoso, tirar rachas é uma diversão muito cara. Roberto* já gastou R$ 8 mil na primeira ‘envenenada’ e R$ 5 mil na segunda. Isso, sem considerar os reparos pelo desgaste do carro depois das corridas. “O conserto pode ficar entre R$ 500 a R$ 5 mil, dependendo do que acontecer no motor”.
O aumento da potência do motor pode ser obtido de várias maneiras. ‘O carro pode ser chipado, turbinado ou nitrado’, afirma o mecânico Pepe Linhares, que trabalha há 16 anos com preparação automotiva. Os veículos mais potentes chegam a atingir incríveis 260 km/h.
Já os ‘pegas’ são combinados durante a semana nas oficinas que fazem a preparação dos carros e ocorrem no início das madrugadas. A Avenida Severino Tostes Meirelles é o point onde os espectadores arriscam suas vidas acompanhando as corridas.
Não é, porém, o único palco. Os rachadores não fogem das ‘intimadas’ eventualmente recebidas em outros locais. ‘Se passa alguém perto de você e acelera ou liga o pisca alerta, vamos para a pista e vemos quem pode mais’, disse Marcelo*.
Ele só se esquece de avaliar os riscos envolvidos nos rachas. No Carnaval, uma jovem de 17 anos morreu quando o Chevette dirigido pelo seu namorado, que trafegava em alta velocidade na Avenida Presidente Vargas, colidiu violentamente contra uma árvore. A suspeita, segundo a polícia, é que o namorado estivesse em um racha.
Nada, porém, isso intimida os rachadores. ‘Minha namorada e meus pais vivem dizendo para eu parar de tirar rachas, mas não tem jeito, está no sangue. Até fugindo da polícia nós nos divertimos’, diz Teodoro.
*Os nome são fictícios
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