Um claro recado aos EUA


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Não é de hoje que o Brasil planta milhares de hectares de cana de açúcar para suprir uma demanda externa. Com o despertar do mercado mundial para a questão energética, especialmente os Estados Unidos, este direcionamento político agravou-se novamente. Os norte-americanos estipularam uma meta de reduzir gradualmente o consumo interno de gasolina e estão propondo ao Brasil a `importante` tarefa de expandir a área plantada de cana para suprir os exagerados índices de consumo daquela sociedade. Algo similar ao papel que a metrópole impunha à colônia, em proporções históricas distintas. Que a cana de açúcar proporciona grandes lucros aos proprietários das usinas, quer brasileira ou estrangeira, todos sabem. No entanto, os danos causados ao meio ambiente e à saúde humana, seja a partir do monocultivo desmedido, do uso abusivo de agrotóxicos e das queimadas, seja pela precarização do trabalho no corte da cana - segundo a Pastoral do Migrante de Guariba desde 2005 morreram 17 cortadores de cana por exaustão, por excesso de trabalho na região de Ribeirão Preto. Segundo a Delegacia Regional do Trabalho foram 416 mortes de cortadores de cana em 2005 em todo o Estado de São Paulo. São incongruências que parecem não constar na equação apresentada à população nacional. A sociedade brasileira precisa ter acesso às informações sobre as reais conseqüências sociais de um projeto que prevê a grande expansão do plantio de cana de açúcar. Informações estas que só ganham notoriedade quando denunciadas nas práticas dos movimentos sociais e sindicatos rurais. De 1990 até 2005 no Estado de São Paulo a expansão da área plantada da cana cresceu 51%, enquanto a área plantada de arroz diminuiu 10,8%, a de trigo 9,8%, a de feijão 6,4%, a de milho 3,7% e a de laranja, 3,3%. Assim, o ato pacífico realizado pelas mulheres da Via Campesina - uma das correntes do Movimento Sem Terra - neste sete de março na usina Cevasa no município de Patrocínio Paulista veio reforçar as denúncias dos malefícios da falsa propaganda do agro-negócio e da monocultura da cana. Deixou ainda, um claro recado aos EUA e ao presidente Bush contra a política de utilização das terras brasileiras como reserva energética para a substituição paulatina do petróleo. Apesar de elevados índices de exportação e um discurso de modernidade no campo, o monocultivo da cana de açúcar nunca conseguiu superar o desafio da sustentabilidade, quer no sentido ambiental, quer no social, e por isso parece mais uma vez na história, atender antes aos interesses estrangeiros que aos anseios da nação. RAQUEL SANTOS SANT`ANA é professora doutora, docente do Departamento de Serviço Social da Unesp/Franca e coordenadora da Associação Brasileira da Reforma Agrária (ABRA) regional

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