Concha Acústica vira casa de andarilho


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O ex-lavrador João Cassiano é visto dormindo sobre papelões debaixo da Concha Acústica, na Praça Nossa Senhora da Conceição, no centro da cidade ontem: “É ruim, frio e perigoso, mas foi o melhor luga
O ex-lavrador João Cassiano é visto dormindo sobre papelões debaixo da Concha Acústica, na Praça Nossa Senhora da Conceição, no centro da cidade ontem: “É ruim, frio e perigoso, mas foi o melhor luga
Numa fase da vida em que as pessoas estão preocupadas em descansar, João Cassiano se esforça para melhorar seu dia-a-dia e conseguir um canto para morar. Aos 68 anos, sem contatos com familiares, o andarilho costuma vagar de uma cidade para outra atrás de serviço. Enquanto não consegue, dorme na rua. Em Franca há dez dias, João se acomoda embaixo do palco da Concha Acústica, na Praça Nossa Senhora da Conceição, em pleno Centro. “É ruim e perigoso, mas foi o melhor local que encontrei”, disse. Colchão? Não tem. Para dormir usa apenas duas folhas de papelão que deixa enroladas durante o dia debaixo de uma árvore, uma colcha estampada para se cobrir e uma das duas mochilas que carrega como travesseiro. João costuma se deitar às 22 horas e levanta às 8 horas, quando a praça “acorda”. Durante o dia, circula pelo Centro carregando as duas malas que tem. Se fica cansado, volta para deitar um pouco em sua “casa” na Concha Acústica. “Forro os papelões no chão e descanso.” Para se alimentar, depende de doações das pessoas. Ontem, ele comeu um marmitex que havia ganho. “Não gosto de perturbar as pessoas. Apenas peço, com educação, comida ou um café quando estou com fome.” Os banhos são mais difíceis. O último que tomou foi na casa de uma prima há quatro dias. Às vezes, João disse que é incomodado por algumas pessoas. “Nesta noite mesmo, uns meninos ficaram me rondando, mandando eu ir dormir. Mas fiquei quieto para não ter problemas.” Fora isso, ele gosta do local. O dia preferido é domingo, quando a banda toca e as crianças brincam pela praça. “Não acho ruim deles ficarem aqui não. As crianças são uns amores, uma graça. A banda é bom para me distrair. Fico sentado no banco olhando eles tocarem.” ORIGEM Nascido em Campos Gerais (MG), trabalhou como lavrador, varrição de ruas e construção de sarjetas quando mais novo. O senhor não se lembra da última vez que trabalhou. Disse receber benefício do INSS, mas não sabe explicar direito o que é a renda. “Como fiz um empréstimo no banco, não ganho tudo. Sobra uns R$ 250, mas não dá para eu viver. Não bebo, não fumo, mas não sobra dinheiro.” João se queixou dos últimos anos de sua vida. “Faz tempo que está tudo ruim e difícil. Como não tenho casa, fico de cidade em cidade. Pego a estrada e vou a pé quando não tenho dinheiro para ônibus”, disse emocionado ao mostrar os pés marcados de bolhas. Ele nunca freqüentou a escola. “Mal assino meu nome.” Antes de chegar a Franca, estava morando em Bragança Paulista num cômodo alugado por R$ 120 por mês. O pouco que tem ficou lá: fogão, botijão de gás, cama e algumas roupas. Na bagagem, trouxe apenas roupas e documentos. “Não sei o que virou das minhas coisas lá. Estou em busca de felicidade, melhora de vida. Preciso ter uma casinha, um lugar definitivo para ficar. Como Franca é uma cidade boa, vim tentar isso aqui.” João é solteiro e perdeu o contato com os irmãos, tios e primos. A última informação que teve de parentes era que a mãe, de 94 anos, estava morando com um irmão em Jundiaí. “Um bocado da família está em Minas, outros em Jundiaí. Tudo espalhado. Meus parentes são bem de vida, têm carro bom, mansão, mas não me dão nada.” A vontade de João é ser caseiro numa chácara. “Não agüento muito serviço. Dá dor no corpo se faço muito esforço. Precisava de algo mais leve, como cuidar de uma chácara”, disse ele, ao informar que é diabético.

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