Elas viram todas as conquistas femininas. O direito de votar, de trabalhar fora e assumir uma dupla jornada, como profissional e dona de casa, de serem eleitas para cargos no Executivo e Legislativo, de morarem sozinhas, de serem mães solteiras, de separar do marido e o direito de assumir postos antes só ocupados por homens.
Emídia, Filomena e Francisca, mulheres de Franca e região, atravessaram quase todo o século passado, lutaram pelas transformações, pela igualdade de direitos, venceram barreiras e hoje, com mais de cem anos, podem ser consideradas grandes representantes do Dia Internacional da Mulher, comemorado hoje.
Apesar de alguns problemas de saúde ocasionados pela idade, elas estão lúcidas e, por meio de suas histórias de vida, traduzem os avanços das mulheres nos últimos anos. Emídia Pereira de Moraes, 103, não esquece de quando o então presidente do Brasil, Getúlio Vargas, promulgou o novo Código Eleitoral, garantindo finalmente o direito de voto às mulheres brasileiras em 1932. Viúva do ex-vereador Ribeiro Cruz, ela ainda acompanha as notícias políticas na TV. "Mamãe é receosa com os políticos de esquerda, muitas vezes não gosta do Lula", admite a filha, Geralda Ribeiro da Silva.
Mineira, da região do Desemboque em Sacramento, mora em Franca desde 13 de agosto de 1970. Recordar datas, inclusive, também é uma de suas virtudes. Em uma das histórias que conta, dona Emídia fala do pai e dos irmãos. Segundo ela, quando pequena, só os homens podiam aprender a ler e escrever. "Minha mãe aprendeu a escrever observando os irmãos terem aula. Os professores iam ensinar em casa".
Filomena Graciosa de Figueiredo, 105 anos completados na terça-feira, não teve filhos, mas criou sete sobrinhos em casa. Nascida em Patrocínio Paulista, cresceu na fazenda, casou-se aos 20 anos, foi servente e conseguiu se tornar professora. Morou longe do marido durante 22 anos para trabalhar em uma cidade na divisa com o Mato Grosso e, desse tempo, não se arrepende de nada. Lutou pela igualdade entre homens e mulheres. Sempre muito bem humorada, gosta de conversar e dar risada. Para ela, o segredo para chegar a esta idade é não estressar. "Sempre fui calma e por isso vivo tanto".
Já Francisca Cubero Bertone, que fará 101 anos amanhã, criou quatro filhos sozinha depois que o marido morreu, quando ela tinha 36 anos. "Foi uma época muito difícil. Minha irmã mais nova iria completar quatro anos e meu irmão mais velho tinha 12", recordou a filha Ângela Bertone. Para cuidar da casa, Francisca precisou lavar roupa para fora e trabalhar em casa de família. "Lavava roupa de jogador, cheia de barro. Fazia limpeza em janela alta. Ganhava pouco, só o suficiente para comer", disse. Segunda ela, o preconceito existia, mas não tinha vergonha de assumir a família sozinha. "Hoje, ficou mais fácil.
Na minha época, as dificuldades eram maiores. Tem mais mordomia. As mulheres venceram".
Filha de espanhóis, nasceu em Franca, mas na década de 50 se mudou para São Paulo em busca de maiores oportunidades. "Minha mãe levantava cedo e ia trabalhar. Como não sabia pegar condução, andava pela linha do trem. Ela sofreu, mas também saiu vitoriosa", Ângela Bertone, filha de dona Francisca.
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