A grande mãe russa


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“Moscou - Estátua de almirante que lutou contra os comunistas na guerra civil russa foi inaugurada na cidade de Irkutsk, na Sibéria. O almirante Alexander Kolchak, que liderou as forças que se opuseram aos comunistas após a revolução de 1917, foi executado por fuzilamento em 7 de fevereiro de 1920” - Reuters. Um dia de festa e de celebrações na gélida Moscou. Afinal de contas, um grande almirante do passado estava recebendo as homenagens de que, em vida, fora digno. Sobre o homem do mar, sabia-se apenas o que a história popular contava, já que, por anos e anos, a história oficial era a que os comunistas gostavam que fosse dito. Mas ele houvera lutado contra o comunismo, por isso não a história não falava muito bem dele, até alguns anos. Com o povo era diferente, pois o almirante foi assunto em muitos bares russos de sua época, enquanto os camaradas bebiam alegremente a vodka sagrada do fim do dia. Era um espanto. Como pode um almirante, homem letrado e instruído, lutar conta o regime? Lutar conta seu próprio país, matar seus irmãos? E de admirado, o almirante passou a ser contestado. De contestado, a odiado. Discussões acaloradas contrastavam com as temperaturas russas, esquentando a noite e oferecendo um pouco de diversão aos camaradas, que já eram miseravelmente iguais e felizes sob o novo regime. Certo dia, num dos bares do subúrbio, um operário foi espancado por dizer que o almirante talvez tivesse razão em alguns pontos, afinal de contas, a pobreza ainda era a mesma da época dos czares, embora, precavido, o proletário tivesse complementado que, na verdade, tudo era diferente, por que uma grande época de prosperidade e igualdade se aproximava visivelmente da grande mãe russa sob o novo regime. A turba, ensandecida com a insanidade do camarada, resolveu fazer justiça. O pobre escapou por pouco, mas não sem antes fazer, com os dentes quebrados e a boca vermelha, uma segunda saudação ao novo regime, ainda mais veemente que a primeira. Quando o ódio chegava ao seu auge e a figura do almirante era apedrejada nas ruas, chegou a notícia: o homem tinha sido morto, lá na Sibéria, fuzilado. Houve certa comoção, tradicional às mortes que ocorrem em tempos não esperados. O governo ensaiou um perdão pelos crimes cometidos, e, como convém, a história e a vodka do dia-a-dia trataram de apagar as marcas do comandante insurgente que, como mártir, somente era lembrado nos altos círculos da traição soviética. Mas a história dá suas voltas e chega então o grande dia. O bronze espera pela luz do sol, ansioso por receber as glórias que o almirante almejou em vida. As pessoas, novos ricos na praça, solenes, aguardam o grande momento. Era primavera em Moscou e o sol ameno aquecia os sobretudos elegantes das pessoas que esperavam pela inauguração. Longe dali, nos subúrbios, os camaradas continuam a beber suas vodkas, agora nos novos tempos de diferença. Não mais uma grande massa sem forma, todos vestiam jeans e tinham personalidades próprias. Tudo havia mudado desde a época dos czares e da revolução. O país tinha mudado, e os resultados da abertura política e econômica eram visíveis a olho nu, não se podia negar, uma grande onda de prosperidade se aproximava da grande mãe russa. Agora eram diferentes, era um fato, e os heróis do passado eram reconhecidos. Cada um tinha sua própria individualidade. Bebendo a mesma vodka, eram miseráveis diferentes. EDUARDO SCHIAVONI é editor do Caderno Local, escritor e educador.

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