Sobreviventes


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Régis Ferreira, 16, engraxa os calçados do sapateiro Valdir Nascimento, 50
Régis Ferreira, 16, engraxa os calçados do sapateiro Valdir Nascimento, 50
Quem nunca foi abordado por algum jovem, com caixinha de madeira em mãos, dizendo a seguinte frase: “Vai graxa aí, moço?”. Apesar de em número reduzido, cerca de 30, os engraxates continuam presentes em Franca, principalmente nas ruas centrais da cidade. O preço é único, R$ 1 por engraxada, e o movimento é bom, com cada profissional atendendo entre 15 e 20 pessoas por dia e faturando salários mensais que variam entre R$ 400 e R$ 800. Ninguém sabe, ao certo, quando nasceu a profissão de engraxate. A hipótese mais provável é que foi criada após o decreto da Lei Áurea, em 1º de maio de 1888, quando os escravos, recém- libertos e sem opção de trabalho, passaram a montar suas caixas e atuar nas áreas movimentadas das grandes cidades. [FOTO2] Em Franca não foi diferente. Nas décadas de 30 e 40, havia dezenas de engraxates espalhados pelas regiões mais importantes, como Estação e Praças Barão e Nossa Senhora da Conceição. “Tinha engraxate para todo lado, porque naquele tempo todo mundo andava bem trajado, com roupas e sapatos sociais. Não faltava serviço para eles”, disse o agricultor Lázaro Alves Ferreira, 78. “Era elegante a gente sentar em um banquinho para engraxar os sapatos”. Com o fortalecimento da indústria calçadista, principalmente a partir dos anos 60, grande parte dos engraxates francanos foi absorvida pelas fábricas. Com isso, o número de profissionais diminuiu consideravelmente, é verdade, mas eles nunca deixaram de ser vistos. Nilo Sérgio Santos, 20, trabalha como engraxate há nove anos. Sai de bicicleta do bairro Miramontes, a seis quilômetros do calçadão da Praça Barão, onde fica seu “ponto”. Começou como a maioria deles, para ganhar uns trocados e complementar o orçamento doméstico. Aos poucos, foi ganhando uma freguesia fiel e fez de sua caixa o seu sustento definitivo. “Não tenho do que reclamar. Atendo pelo menos 20, 25 clientes por dia e faço meu salário honestamente. Não me falta nada. Nunca trocaria minha caixa por um emprego em fábrica”, disse.

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