<p>Ele não tem papas na língua. Ao contrário do tradicional corporativismo dos médicos, o pneumologista Marcelo de Paula Lima não pensa duas vezes para criticar posturas e atitudes de seus desafetos dentro da profissão. </p>
<p><br />Em declarações polêmicas, o diretor-clínico da Santa Casa afirma que o hospital era um “território de ninguém”, onde cada um fazia o que queria. Disse ainda que muitos médicos já exploraram comercialmente o hospital. “Havia um grupo que comandava tudo e influenciava em todas as decisões da administração. Hoje, isso acabou. A Santa Casa tem comando. Os profissionais ainda são ouvidos, mas todos e não só meia dúzia”. </p>
<p><br />A maior parte do tempo em que foi entrevistado, Marcelo demonstrou bom humor e tranqüilidade. Respondeu a todas as perguntas e só mudou de expressão quando teve de falar dos médicos Carlos Riad, Lavínio Nílton Camarim e Marco Aurélio Piacesi, seus maiores oposicionistas. “São pessoas que nunca fizeram nada para ajudar a Santa Casa e só vêm aqui para criar polêmica. Não são meus amigos”, disse. </p>
<p><strong>Comércio da Franca - As críticas às gestões passadas da Santa Casa, pela atual administração, são muito comuns. A situação, quando o senhor assumiu a diretoria-clínica, era tão caótica assim?<br />Marcelo de Paula Lima</strong> - O quadro era preocupante. O médico trabalhava com insegurança, pois faltavam até materiais. Após a chegada do Onofre Trajano, as coisas mudaram para melhor. Há condições de trabalho, os salários estão em dia e tudo isso dá mais segurança. </p>
<p><strong>Comércio - Sua gestão é marcada por críticas de médicos. Eles alegam que o senhor perdeu nas urnas mas, ainda assim, foi empossado. Como o senhor vê isso?<br />Marcelo</strong> - Isso ocorreu na minha reeleição. Na primeira disputa, tive o dobro de votos que meu concorrente. Na segunda, perdi por três votos. Mas, de acordo com o estatuto da Santa Casa, o provedor poderia escolher o diretor em uma lista tríplice. Ele decidiu, amparado na legalidade, me escolher. Foi tudo legítimo. Agora, há contestações de cunho pessoal, uma insatisfação pontual, manifestada por pequenos grupos. </p>
<p><strong>Comércio - Ainda assim, existe uma barulhenta oposição ao senhor. Dizem que toma decisões que prejudicam os outros médicos. Concorda com isso?<br />Marcelo</strong> - Não. Minhas decisões são sempre tomadas visando ao melhor para os pacientes e não para os médicos. Não tenho essa visão corporativista. Não temos de adaptar a Santa Casa à vida dos médicos, mas o contrário. Isso gera insatisfação sim. Mas insisto: em um pequeno percentual. A maioria está coesa, trabalhando e apoiando nossas decisões. Não fosse assim, não faríamos mais de 60 mil procedimentos ao mês. </p>
<p><strong>Comércio - Quem são essas minorias?<br />Marcelo</strong> - São pessoas que ocupam cargos de representação de classe que tentam criar situações que me colocam em xeque, mas todas minhas atividades e decisões são tomadas estritamente dentro da lei. Se acham que existe qualquer ilegalidade, os órgãos de representação de classe e a Justiça estão aí para receber as denúncias. </p>
<p><strong>Comércio - Recentemente, esses órgãos manifestaram repúdio à atual administração da Santa Casa, que barrou a entrada de três médicos no hospital - Lavínio Camarim (delegado do CRM na cidade), Marco Aurélio Piacesi (presidente do Sindicato dos Médicos) e Carlos Riad. Como o senhor vê isso?<br />Marcelo</strong> - Nenhuma entidade entrou em contato direto comigo. Até porque foi uma medida administrativa e não do diretor-clínico. Agora, foi uma decisão fundamentada. As pessoas que foram impedidas de entrar não trabalham, nem tinham pacientes internados aqui. Conseqüentemente, não tinham o que fazer no hospital. Aí criaram toda a celeuma. Mas a verdade é uma só: não tinham o que fazer dentro da Santa Casa. </p>
<p><strong>Comércio - Por que estavam lá então, tentando entrar no hospital?<br />Marcelo</strong> - O que queriam era dar posse a um deles (Carlos Riad) como presidente da Amesc (Associação dos Médicos da Santa Casa), sendo que ele nem fazia mais parte do hospital, pois foi demitido. Pode ter sido armada, sim, alguma coisa arquitetada nos bastidores. Uma coisa que julgo primária e que não condiz com a postura de homens sérios, que lidam com a saúde. São pessoas que não ajudam em nada a Santa Casa e só denigrem o nome da instituição. </p>
<p><strong>Comércio - Além de Riad, Lavínio Camarim também foi demitido. Enquanto médico, como eles, concorda com as dispensas?<br />Marcelo</strong> - Concordo plenamente. O doutor Riad foi demitido porque entrou com um processo trabalhista contra a fundação. É uma questão óbvia: se minha cozinheira me processa, não tem como continuar fazendo meu arroz. Já o doutor Lavínio teve uma postura inadequada e desrespeitosa com a Santa Casa, ao arquitetar esse plano para que o Riad assumisse a Amesc. Foi uma molecagem e para se mexer com gente, com saúde, não se pode fazer molecagem. </p>
<p><strong>Comércio - O senhor se considera antiético por criticar abertamente posturas e atitudes de seus colegas?<br />Marcelo</strong> - De forma nenhuma. A visão de ética que esse pessoal tem é diferente da minha. A minha ética é de princípios e valores, que não prejudica ninguém. Agora, a ética deles é corporativista, de envolvimento com sindicatos. Para mim é o seguinte: se o doente é bem atendido, a minha ética está perfeita. </p>
<p><strong>Comércio - Boatos dizem que, antes da gestão de Onofre Trajano, os médicos é quem mandavam na Santa Casa, em uma espécie de “máfia branca”. Isso realmente existiu?<br />Marcelo</strong> - Por alguns momentos existiu isso sim. Um conjunto de médicos teve poder de influência por alguns anos na Santa Casa. Não posso dar detalhes, porque não vivi isso, mas aconteceu. Isso, aliás, foi um dos pontos fundamentais da administração de Onofre Trajano. Ele abriu para que os médicos pudessem participar e opinar. Abriu a oportunidade de participação para todos os médicos e não apenas para um grupo. </p>
<p><strong>Comércio - Quais os favorecimentos que existiam para os médicos?<br />Marcelo</strong> - Já houve grandes questões em torno disso, como firmas terceirizadas que operavam dentro da Santa Casa. O promotor Paulo Borges (Cidadania) começou a quebrar isso. Filantropia não condiz com firmas terceirizadas. Um hospital filantrópico recebe benefícios do governo por isso e não pode terceirizar serviços para que pessoas físicas ou jurídicas desfrutem das benesses. Hoje, não existe mais isso, é tudo da Santa Casa. </p>
<p><strong>Comércio - O senhor acha que a população está satisfeita com a Santa Casa?<br />Marcelo</strong> - Fico em 80% de meu horário de trabalho dentro desse hospital. E um fato é curioso: sempre que sai alguma crítica na imprensa sobre a Santa Casa, pelo menos dois ou três pacientes me cumprimentam e elogiam nosso trabalho. Isso, para mim, é um sinal de aprovação. </p>
<p><strong>Comércio - Que nota o senhor se dá como diretor-clínico?<br />Marcelo</strong> - Nota oito. Sempre fui muito caxias e me cobro muito. Se eu mesmo me avaliar abaixo disso é porque não estou fazendo as coisas certas. </p>
<p><strong>Comércio - Como o senhor define um bom e um mau médico?<br />Marcelo</strong> - É uma dedicação de amor. É uma das poucas profissões em que se pode trabalhar honestamente, fazer caridade e ganhar o sustento da família. Quer profissão mais bonita que essa? Agora, o médico não pode se cegar por dinheiro. Ele é apenas uma conseqüência disso tudo, mas nunca pode ser visto em primeiro plano. Para esse profissional, a profissão começou morta. </p>
<p><strong>Comércio - Quais foram, até aqui, suas maiores alegrias e tristezas na Santa Casa?<br />Marcelo</strong> - Aqui se vivem extremas alegrias e grandes tristezas. Deus já me permitiu colocar a mão no coração de um paciente que foi furado por uma facada. Consegui, graças a Deus, dar vida a esse paciente. É uma dádiva, uma oportunidade divina. Agora, tristeza você vê todo dia com o sofrimento de pacientes, como um câncer terminal, que causa muita dor, ou criança que falece. É uma profissão muito doída.</p>
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