Entre 7 e 12 anos, Carlos Renato dos Santos jogava basquete em São Paulo. Nos coletivos, quando todos queriam um colete no time titular, ele sempre pedia para apitar. Um dia resolveu fazer do uniforme da Federação Paulista do esporte sua segunda pele. Ainda aos doze anos, Renatinho, como hoje é conhecido, fez seu primeiro curso de arbitragem. Atualmente, é considerado o melhor árbitro do País. Seu currículo é invejável.
Aos 31 anos, ele já apitou duas finais de Olimpíadas, além de diversos torneios nacionais e internacionais. Ele mesmo garante: “não falta mais nada para me realizar profissionalmente”. Renatinho garante que todo ano faz seu trabalho da melhor forma com o objetivo de manter-se sempre no topo. Para ele, já nasceu gostando de basquete. “Também nasci no Hospital São Paulo, na Avenida Paulista, ao lado de onde era a sede da Federação Paulista de Basquete. Tentei ser jogador mas meu dom era mesmo para apitar”, disse.
Em Franca desde sexta-feira para apitar o quadrangular do grupo C da Liga Sul-Americana, Renatinho deu entrevista ao Comércio e contou sobre o desejo de viver somente do trabalho de árbitro. Ainda contou algumas das histórias que viveu nestes 22 anos no esporte. “A primeira vez que saí do ginásio em um camburão me deu medo. Mas apito do mesmo jeito em qualquer lugar, faço o meu trabalho da melhor forma possível. Não tenho medo de nada”, disse.
Comércio da Franca - Você é único árbitro brasileiro apitando o grupo C da Liga. Como foi a escolha?
Carlos Renato dos Santos - Eles colocam um árbitro do País sede da primeira fase e três neutros de países que não estão naquele grupo. Esse ano quem fez a escala da Liga foi a Fiba América e ela escolheu seis brasileiros: eu vim para Franca, o Sérgio Pacheco e o Marco Benito foram para o Peru e o Chico (Francisco Ferreira), o Enaldo Batista e o Cristiano Maranho ainda não foram escalados, devem apitar as próximas fases.
Comércio - Desde quando você apita?
Renatinho - Desde 1985 quando tinha 12 anos e fiz o primeiro curso na Federação Paulista.
Comércio - Porque escolheu ser árbitro de basquete? Você já jogou?
Renatinho - Eu acredito muito em dom, acho que é um dom que eu tive. Joguei basquete, mas eu gostava disso mesmo. No treino quando tinha coletivo eu pedia para apitar, não queria jogar. Fiz o curso e fui seguindo meu caminho.
Comércio - Você apitou duas finais de Olimpíadas e várias competições importantes. O que te falta realizar?
Renatinho - Não falta nada. Mas a gente sempre tem objetivos. Quero continuar viajando, apitando competições importantes. Meu objetivo hoje é ir ao Pré-olímpico em Las Vegas e ir as Olimpíadas ano que vem em Pequim, na China. Não estou satisfeito, quero manter meu nível.
Comércio - Você é a favor da profissionalização da arbitragem?
Renatinho - Sempre torço para isso. Eu gostaria hoje de ser um profissional do apito, mas não posso ser porque a parte financeira não faz com que eu tenha dinheiro suficiente para manter a minha família.
Comércio - Então tem outra profissão?
Renatinho - Eu sou gerente administrativo em uma empresa de construção civil em São Paulo, que é o meu primeiro emprego e o basquete fica mais como um hobby.
Comércio - Como conciliar o emprego com as viagens para apitar?
Renatinho - Quando viajo tenho que me programar antes para poder sair, mas é difícil. Eu gostaria de ser um árbitro profissional como são os da NBA, mas a realidade do País não é essa.
Comércio - É diferente apitar um jogo internacional e um do Nacional ou Paulista? Sua postura é diferente?
Renatinho - Minha postura não é diferente mas as competições são diferentes. Quando você está no Brasil, apitando seja o Nacional ou o Paulista, você está freqüentemente vendo as mesmas equipes, os mesmos jogadores, torcedores. Se cria uma intimidade, todo mundo te conhece, te xinga pelo nome. Nas Olimpíadas por exemplo, você vai de 4 em 4 anos, tem um time que você nunca apitou, que não te conhecem, então a postura deles é diferente. Agora, o nível de exigência do árbitro lá fora é maior. Aqui você conhece todo mundo, todos te respeitam pelo que você conquistou. Tem muito disso. Sempre procuro ser profissional, ético. Nunca tive medo de pressão.
Comércio - Como é apitar em Franca, onde todos te conhecem e entendem de basquete? Sente essa pressão?
Renatinho - Eu comecei apitando grandes jogos que eram Franca e Rio Claro. Sempre apitei grandes decisões aqui. Sempre fui muito bem recebido aqui. Para falar a verdade foram poucas as vezes que tive problemas em Franca. Lógico que é uma torcida exigente, que pressiona, como tem que ser.
Comércio - Já apanhou?
Renatinho - É muito difícil, mas já levei um tapa, um chute, mas são coisas normais que acontecem. Uma vez sai de camburão no Palmeiras, mas não cheguei a apanhar. Uma vez em Franca no jogo do Dharma também precisei ser escoltado. Também já precisei sair agachado numa viatura da polícia. Mas se isso não acontecer não vou ter história para contar.
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