Os latidos roucos de uma velha pastora alemã, já com pêlos brancos pelo rosto. Isso é o sinal de vida que sobrou na residência de PLZ, 68, o médico suspeito de ter assassinado o servente de pedreiro Fábio Henrique Paulino, 17, pouco depois de ter sua residência assaltada pelo próprio Fábio e por outros comparsas, na quinta-feira da semana passada. Vizinhos e o porteiro do condomínio onde o médico mora revelam que o assalto foi o quarto sofrido por ele em sua própria casa.
Oito dias após o incidente, o médio esteve na sede da DIG (Delegacia de Investigações Gerais) e pouco acrescentou às investigações. Confuso e abatido, apresentou um atestado médico e será ouvido pela polícia em dez dias.
PLZ se formou em 1976, pelo Unifeso (Centro Universitário Serra dos Órgãos), em Teresópolis (RJ). Seu registro no Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) data de fevereiro de 1977 e não aponta nenhuma condenação por erros no exercício da profissão. O mesmo conselho diz que os dados do médico podem ter sido transferidos de outro conselho estadual, mas não confirma sua especialidade.
De acordo com depoimentos, ele seria neurologista e teria trabalhado no Rio de Janeiro antes de se aposentar e transferir-se para Franca, o que teria ocorrido há cerca de dez anos, quando o médico passou a morar no Condomínio Três Porteiras, às margens da Avenida São Vicente.
Por ironia, a mudança ocorreu em busca de tranqüilidade. “Ele me disse que veio para cá querendo paz, sossego. Não era muito de sair, ele era caseiro”, disse um vizinho, que prefere o anonimato. Se essa era a intenção, a escolha da moradia não poderia ter sido melhor. A Rua B do Condomínio Três Porteiras é calma e com pouco movimento. A pasmaceira é tamanha que, em determinados momentos do dia, é possível ouvir o coaxos e cacarejos de sapos e galos da vizinhança. No entanto, as repetidas invasões de sua propriedade por bandidos vinham tirando o sono de PLZ. “Os ladrões estavam atazanando ele”, disse o mesmo vizinho.
A grande paixão do médico são dois carros fabricados nas décadas de 70 e 80, chamados SM -abreviatura de Santa Matilde - e avaliados em cerca R$ 30 mil cada. Ele e sua mulher, CR, 57, uma assistente social, possuem dois veículos do tipo, modelo cupê, ano 86, de cor verde e vinho, respectivamente. O casal faz parte até de um clube de admiradores de SMs, com página exposta na internet.
Os SMs eram produzidos em uma pequena fábrica na cidade do Rio de Janeiro. No total, estima-se que mil deles tenham sido produzidos e não é possível saber quantos ainda estão rodando. O cuidado de PLZ com os seus dois exemplares era tanto que ele fazia questão de mandar reparar os defeitos dos veículos em uma oficina de São Caetano do Sul, mesmo havendo mecânicos que poderiam fazer o serviço por aqui mesmo.
No entanto, o zelo de PLZ com seus SMs não impediu que os ladrões acostumados a visitá-lo tivessem a chance de dirigir um dos veículos. Na noite do dia 15 de agosto de 2006, depois de roubar um aparelho GPS, um aparelho de som, máquina fotográfica digital, peças de roupas e talões de cheques da residência do médico, quatro bandidos usaram o carro que estava na garagem para fugir. O veículo só foi localizado horas depois do assalto.
‘ABATIDO’
No dia 16 de dezembro, depois de ter sofrido um infarto, PLZ foi internado no Hospital do Coração, às 16h20. Foi submetido a uma cirurgia e só recebeu alta depois de três dias. Desde então, vinha demonstrando abatimento. “Na última vez em que o vi, dias antes do último assalto, ele estava pálido, magro”, disse um vizinho. Nos últimos sete dias, não há registro de passagem de PLZ em hospitais de Franca.
DÚVIDAS
Na chácara de PLZ, ninguém atende ao interfone ou aos chamados, mas há indícios de movimentação. O principal deles fica por conta de materiais de limpeza na garagem da casa. Vistos na manhã de quinta-feira, eles não estavam lá na tarde de quarta-feira. Entre os vizinhos, alguns afirmam que uma empregada freqüenta a residência mesmo quando o casal não está. Outros afirmam que nunca houve empregada. O porteiro fala na existência de um caseiro não muito assíduo. “Já ouvi falar que vem uma pessoa”, disse.
Dúvidas também existem em relação à família do médico. Há quem afirme que ele possui uma filha e um filho e que eles morariam em São Paulo e no Rio de Janeiro. Outros dizem que, na verdade, seria apenas um filho. Outros, ainda, que seria uma filha. Pelos relatos, PLZ costumava visitá-lo(s). “Até onde o conheci, foi um ‘caboco’ de ponta, uma pessoa muito boa. O camarada aposenta e quer um sossego, uma paz. Essa era a quarta vez que os ladrões entraram lá. Eu acredito que os ladrões abusaram dele”.
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