Infância em perigo


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Lucas Ferreira lembra o dia em que queimou a palma das mãos ao tocar no fogão de sua casa.
Lucas Ferreira lembra o dia em que queimou a palma das mãos ao tocar no fogão de sua casa.
Acidentes envolvendo crianças têm preocupado pais e autoridades em Franca. Um caso recente que chocou a população foi a morte de Wesclei da Silva Braúlio, de 5 anos. O garoto morreu após ser atropelado por um ônibus ao correr atrás de uma bola no último sábado, 24. Acidentes como este têm se tornado cada vez mais comuns. Não existem estatísticas oficiais. Os únicos números são da Vigilância Epidemiológica, que, em janeiro, começou um levantamento sobre os atendimentos de crianças no Pronto-socorro Municipal. Pelos dados, por dia, seis crianças são vítimas de acidentes. Os outros hospitais não têm controle, mas os médicos, acostumados a atender ocorrências durante plantões e nos consultórios, estimam que, de cada dez pacientes, mais de três tenham sofrido acidentes em casa ou na rua. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, acidentes, traumas e violência são a primeira causa de morte entre zero e nove anos. Pediatra há 27 anos, Eduardo Simões confirma a gravidade do problema. “Há muitos casos. Não passamos um plantão sem atender crianças machucadas, que bateram a cabeça, tiveram contusão no braço e outros traumas. Atendo de quatro a cinco pessoas por plantão”, disse. No Hospital Unimed, Ana Paula Lucas, líder da unidade de emergência, acredita que 30% dos usuários com até 12 anos que procuram o pronto-atendimento foram vítimas de acidentes domésticos. A médica Ana Amélia Jacinto, na área desde 1982, também disse que esses tipos de casos são uma rotina na Santa Casa. Só nesta semana, a equipe do hospital atendeu três crianças. A água da churrasqueira elétrica caiu sobre o rosto, tronco e braços de uma criança de 3 anos, outra foi picada por uma cobra e a terceira paciente comeu veneno de rato, aqueles que se parecem com doces. Todas receberam alta. “É raro registrarmos óbitos, mas os acidentes sempre deixam marcas.” As vítimas costumam ficar com deformações, cicatrizes e seqüelas. “Além do sofrimento, dor e de perderem dias de escola”, disse Eduardo. O levantamento iniciado em 2007 pela Vigilância Epidemiológica atende à determinação do Ministério da Saúde de diagnosticar acidentes domésticos nos municípios. Entre janeiro e fevereiro, o Pronto-Socorro Infantil de Franca registrou 177 ocorrências. As mais comuns, 112 no total, foram de suturas (pontos) em lesões causadas por faca, vidro, tombos e perfurações. No mesmo período, foram feitas 23 imobilizações em decorrência de quedas de cadeira, mesa, bicicleta e árvore; sete lavagens gástricas porque os pacientes haviam ingerido detergente, alvejante ou comprimidos e 35 curativos em queimaduras e ferimentos causados por quedas. “Até agora não eram feitas estatísticas. Os dados servirão para entender onde nasce o problema e montar ações para combatê-los”, disse Alexandre Ferreira, secretário de Saúde. é possível evitar. Para os médicos, a principal causa dos acidentes é o descuido dos pais. Quem cuida das crianças deve estar sempre atento e tomar medidas simples que podem salvar a vida delas. Em casa, o maior inimigo apontado pelos pediatras é a cozinha. Ana Amélia Jacinto foi categórica ao afirmar que “cozinha não é lugar de criança”. “Sempre falo isso. Os adultos devem mantê-la isolada, cercada com grade ou de porta fechada para que os meninos não tenham acesso”, disse a médica, ao comentar que os casos que mais recebe são de queimados com água fervente e leite. “Todos nós precisamos estar cientes que os acidentes e violência são evitáveis. Os pais precisam estar sempre vigilantes, sem deixar objetos de risco por perto dos filhos, andar com segurança no carro e na calçada (sempre com a criança do lado da parte interna). Medir o risco antes de fazer algo”, disse Eduardo.

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