Até que se prove o contrário, os governantes são sempre os culpados de todas as mazelas do país. Se a conta de luz sobe, é porque não existe pulso firme do ministro. Faltou emprego na praça? Não há dúvida em apontar o presidente de plantão como o grande vilão pelo problema. Quando o dólar se desvaloriza, aí a situação se complica: o povo comemora e os empresários protestam. A chiadeira contra o governo, seja federal, estadual ou municipal, não é uma exclusividade tupiniquim, embora a vida de um assalariado brasileiro não se compare à de um operário dinamarquês. Porém, os administradores públicos não podem ser culpados por tudo que acontece no País.
Um bom exemplo disso é o que vem acontecendo no mercado de trabalho da região Nordeste nos últimos tempos. Uma reportagem recente demonstrou que produtores rurais têm encontrado dificuldades para contratar pessoas dispostas a trabalhar com carteira assinada. Dois motivos norteiam essa aversão ao trabalho formal. Primeiro, ninguém quer perder os benefícios obtidos com as bolsas de assistência social distribuídas a quem não tem renda. Depois, porque uma parte desses trabalhadores vê na carteira assinada um entrave para agilizar suas aposentadorias.
A discussão em torno do assistencialismo do Estado brasileiro é antiga. Remonta aos anos 30 de Getúlio Vargas, presidente que ficou conhecido como "Pai dos Pobres". Naquela época, a gritaria das elites buscava minar as primeiras conquistas trabalhistas, como o salário mínimo. Nos últimos anos, o debate se concentrou nas soluções para reduzir o mercado informal, que abocanhou mais da metade da mão-de-obra do País, tendo impacto substancial na arrecadação de impostos e no dia-a-dia de quem precisa comprovar renda para uma compra ou abrir uma conta no banco.
O surgimento de bolsas de auxílio financeiro amenizou a situação de miséria de parte da população. E não foi por acaso que sua distribuição se concentrou no Nordeste, uma região historicamente pobre e sem empregos. Ocorre que agora os beneficiados por esses projetos preferem permanecer na irregularidade a ter de abrir mão dessa renda extra. A situação é um prato cheio para quem sempre foi contrário a esse tipo de programas. E, sem dúvida, uma ducha de água fria para quem os defendia.
Na intenção de ajudar os mais pobres, o governo federal puxou um lado do cobertor com as bolsas de auxílio, mas viu seus pés sem proteção na hora em que apareceram as vagas para tirar os trabalhadores da informalidade. Vai se entender quem é mais esperto.
Também não podemos deixar de lado a questão previdenciária. A reforma caminha a passos lentos, em velocidade inversamente proporcional ao rombo que vem sendo imposto anualmente aos cofres públicos. Ninguém quer abrir mão de um centavo sequer, ou discutir uma nova regra para absorver uma população que vê sua expectativa de vida aumentar. A matemática é simples. Se hoje há dificuldade para pagar 17 milhões de aposentados, será impossível imaginar uma velhice digna a nossos filhos e netos.
Mas, no fim, a responsabilidade é toda do governo. O restante da sociedade é apenas vítima dessa situação. Não importa se o Congresso Nacional continua empurrando as reformas constitucionais com a barriga. Muito menos se os empresários do campo só agora tenham decidido registrar a mão-de-obra. Ou que o trabalhador permaneça reclamando da falta de garantias trabalhistas. Mais uma vez, e como sempre, a culpa é do presidente, do governador, do ministro e do prefeito.
MILTON DALLARI é consultor empresarial, engenheiro, advogado e presidente da Associação dos Aposentados da Fundação Cesp.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.