Vestidos com calça, camisa e boné vermelhos, pendurados na traseira do caminhão por cerca de sete horas diárias, de segunda a sábado, os coletores de lixo se revezam nos saltos do veículo e arremessos de sacos retirados das calçadas e lixeiras. Eles percorrem, em média, 130 quilômetros por dia. Para se ter idéia do percurso, é como se fossem e voltassem de Rifaina coletando lixo num mesmo dia. Essa é a rotina vivida por 84 lixeiros (ou coletores, como preferem ser chamados) e 13 motoristas da Colifran, empresa responsável pela limpeza da cidade.
Com idades entre 20 e 40 anos, a maioria tem baixa escolaridade (Ensino Fundamental incompleto) e é chefe de família. Os salários variam de R$ 500 a R$ 700, mais um adicional de insalubridade, cestabásica e convênio médico. "Queremos aumento.
Mas, pelo menos por enquanto, com o que recebo, garanto o pagamento do aluguel, força, água e comida", disse o coletor Wilson Carlos da Silva, 28.
O serviço é puxado. Cada coletor recolhe, em média, cinco toneladas por dia. Em dias de maior volume, como depois de fins de semana e feriados, a quantidade pode saltar para 7,5 toneladas para cada um. Para se ter uma idéia, ontem pela manhã, em apenas um quarteirão da Rua Alberto Schirato, no Parque Progresso, quatro coletores retiraram 87 sacos de lixo em cerca de três minutos de trabalho. "A gente corre mesmo. Assim damos conta do recado e ainda saímos mais cedo para poder descansar", disse Wilson.
Estabilidade parece ser o atrativo nesse tipo de serviço. Pelo menos os quatro entrevistados pela reportagem disseram ter optado pela profissão em busca de segurança. Eles migraram de outros ramos - fábrica de sapatos, corte de cana e colheita de café, para evitar desemprego em alguns meses do ano. "Cansei de ficar sem serviço todo começo de ano. Na Colifran, tenho mais garantia que nas fábricas. Tenho minha família para sustentar e preciso dessa segurança", disse Lucas Henrique da Silva, 25, que trabalhou como sapateiro por dez anos e está contratado pela Colifran há dois meses.
O companheiro de equipe de Lucas, Wilson da Silva, também deixou outras profissões atrás de segurança no trabalho. Coletor há seis meses, trabalhou em lavouras na região, foi pintor e sapateiro. "Precisava de algo mais `firme` para alimentar meus filhos. Os outros serviços são mais provisórios", disse o pai de Eric, 4, Érica, 1 e Francislene, 4 meses. "Estou no céu agora, afinal tenho serviço todos os dias. E essa é uma área que tende a crescer. As pessoas sempre produzirão lixo, não é mesmo?"
Para Wilson, que interrompeu os estudos na 6ª série, a mudança de ambiente de trabalho não foi fácil. Ele se lembra bem dos primeiros dias de contato com o lixo. Além das dores musculares pelo desgaste físico, não conseguiu comer direito na primeira semana. "Passei a sopa de fubá. Não podia ver arroz, feijão nem macarrão que lembrava do lixo e bichos andando nos sacos. O estômago embrulhava. Agora já me acostumei. Não é qualquer um que agüenta esse serviço."
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Esses seis meses como funcionário da Colifran foram tempo suficiente para Wilson perceber o preconceito das pessoas. "Existe e é muito forte. Tem gente que tampa o nariz quando passamos perto. Aprendi a ignorar essas coisas. Não posso rebater, pois a pessoa pode levar o caso para a Colifran e posso perder o emprego. É melhor não correr esse risco."
A maior motivação para continuar a recolher lixos pela cidade é a família. "Comecei por falta de opção e aprendi a gostar do trabalho. Meu sonho é ter dinheiro para oferecer aos meus filhos o que não tive, principalmente estudo".
Wilson, que quer batalhar para ser motorista e ganhar cerca de R$ 200 a mais por mês, trabalha durante a semana e aos sábados, das 7 às 15 horas, e recebe R$ 509 por mês, mais benefícios. "Meu dia começa às 5 horas. Vou de bicicleta até o ponto onde o caminhão nos busca. Levo marmita para o almoço, que como quando o caminhão enche e precisa ser esvaziado no aterro. É duro, mas tenho de correr atrás dos sonhos."
EXTROVERTIDOS
Uma característica conhecida entre os lixeiros é a maneira como trabalham. Apesar do cheiro forte, preconceito sofrido e outras dificuldades, correm pelas ruas bem-humorados. Para quem está de fora, fica difícil entender de onde sai tanta disposição. Mas eles justificam. "É melhor trabalhar assim. A gente distrai.
Aliás, as amizades e brincadeiras que fazemos no serviço é o melhor de tudo", disse Aparecido Cruz, 23, funcionário da Colifran há um mês.
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