Diferente


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Branco, baixa estatura, rosto inexpressivo, ultimamente com uns quilos a mais e um monte de defeitos. Sou eu. Vivo em busca do equilíbrio, procuro fazer as coisas direito, mas às vezes me atrapalho, faço besteira e então fico de mau humor, insatisfeito. Não tenho orgulho nenhum desse meu jeito. Nem vergonha. Eu me aceito. Sou assim e, queira-se ou não, gosto de mim. Mesmo que fosse perfeito, fisicamente apolíneo e intelectualmente genial, agiria igual: sem orgulho nem vergonha. Não haveria razão para tal. Acho que se deve ter amor-próprio, auto-estima, mas nada de soberba, auto-adoração. Afinal, vivendo em comunidade, respeito, amizade é fundamental. Cada um tem seus pontos fracos, suas suscetibilidades. A vida é cheia de vicissitudes e quem consegue enfrentá-la com certa serenidade há de ter lá algumas virtudes. A vida não é fácil pra ninguém, mas há que se reconhecer que certas pessoas têm mais dificuldades. São aquelas `diferentes`, assim consideradas pelas que se acham normais. Os obesos, os portadores de deficiência, os que possuem algum mal congênito, alguma deformação. Principalmente na infância, é comum zombar de quem é gordo, quem usa óculos, quem tem orelhas muito abertas, nariz grande, etc. Risinhos sarcásticos, deboche, desdém, segregação, apelidos pejorativos. A pessoa já não se sente bem e os outros ainda tentam piorar ressaltando o defeito, com a clara intenção de expor ao ridículo, humilhar, criar rejeição. Há pessoas que são tratadas como se fossem aberrações da natureza. Os pais, como regra básica, devem ensinar os filhos desde a mais tenra idade a respeitar as outras pessoas, a conviver com a diversidade. Uma dica de filme: Reflexos da amizade. Fantástico! Ninguém se engrandece expondo outro a vexame, ao ridículo. Pelo contrário. Quem age assim revela fraqueza de espírito, insegurança, falta de auto-afirmação, desconhece a própria limitação. Divertir-se à custa de defeitos alheios não tem graça nenhuma, buscar felicidade na infelicidade alheia não condiz com o que se espera da pessoa educada, equilibrada. O indivíduo realmente virtuoso não faz autopropaganda, não tenta sobressair-se tratando mal os outros, não fala, fica de boca fechada se não tem nada de agradável a dizer. O sujeito educado responde prontamente a um `bom dia`, `boa tarde`, mesmo que venha de alguém que ele não goste. Isso é elementar nas relações humanas. Quem busca a beleza física a qualquer custo precisa saber da natureza relativa de que ela se reveste. A verdadeira beleza vai além da mera estética, do aspecto físico. Antes do belo, vem o funcional; antes do supérfluo, o essencial. Pensem nisso as garotas que deixam de se alimentar para ficarem magrelas, sonhando serem modelos, brilhar em passarelas. Pensem primeiro na vida. Os consultórios dos analistas vivem cheios de pessoas bonitas e infelizes, em crise existencial. A vida é que é essencial. O céu é o céu, pouco importa se estrelado ou escondido por nuvens negras. A lua é a lua, seja minguante ou cheia. Ensolarado ou chuvoso, um dia é um dia. O ser humano não perde tal condição se é destituído da beleza física, se tem alguma anomalia. Até porque a beleza não é sempiterna. Nesta existência fugaz, não há tonicidade que resista ao tempo e à lei da gravidade. A vida é uma caixinha de surpresas. Tal qual as mudanças das marés, não falta oportunidade para que se ponham os pés pelas mãos, é impossível passar sem nenhum revés. Qualquer pessoa está sujeita a tragédias, doenças, infortúnios. É necessário ter amor, pois seja como for qualquer um tem defeitos, mas também tem qualidades, tem valor. Diferentes ou normais, todos um dia se vão, tal qual as folhas secas levadas pelos ventos outonais. Diferentes ou normais, é preciso ter coração, paixão pela vida e respeito uns pelos outros, acima de tudo o mais. Diferentes ou normais, perante Deus e a natureza somos todos iguais. Não muda a dureza da rocha, não muda a beleza da flor que desabrocha, nem o calor do deserto, tampouco o destino incerto. O sol brilha para todos, sem distinção. Cada um é um nesta vastidão, nesta multiplicidade de gentes, nesta diversidade de seres viventes, nesta multidão de diferentes eus, neste imenso mundão de Deus. PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça

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