Moradores resistem e não pretendem deixar o arraial


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Em Desemboque, a vida passa devagar. Os animais, como os cachorros da foto, não são presos nos quintais. Pelo contrário, vivem todos juntos e passam os dias deitados na grama. O gramado se espalha por todo o arraial e serve tamb&eacut
Em Desemboque, a vida passa devagar. Os animais, como os cachorros da foto, não são presos nos quintais. Pelo contrário, vivem todos juntos e passam os dias deitados na grama. O gramado se espalha por todo o arraial e serve tamb&eacut
O povoado do Desemboque, em Sacramento (MG), está quase vazio. As pessoas vão embora em busca de emprego e para continuar estudando. Mas há quem resista. Gaspar de Araújo Lima, 54, é um deles. Nasceu no vilarejo e de lá não pretende sair. Essa decisão não tem sido fácil. Na tentativa de conseguir ganhar um dinheiro para se manter no vilarejo, ele abriu um bar há dez anos acreditando que teria lucro. O estabelecimento ainda existe, mas sem muita perspectiva. “Vendo mais quando vêm visitantes. O pessoal daqui não tem muito dinheiro”, lamenta. Para aumentar a renda da família, Gaspar tem que trabalhar como pedreiro em cidades vizinhas. No arraial, mora com a mulher e uma filha. “Tenho mais duas filhas que depois de se casarem foram morar em fazendas”, afirma. Quem não tem a mesma sorte que Gaspar trata de se ocupar com a criação de galinhas, porcos e o cultivo de horta. “Faço compras em Sacramento, mas tudo que posso planto aqui mesmo para diminuir as despesas”, conta Josabete Rosa de Paula, que mora há 23 anos na casa que fica logo na entrada do arraial. “Gosto muito daqui. Só queria melhorar minha moradia”, lamenta ela que, em tempos de chuva, precisa cobrir o telhado com lona para evitar as goteiras. A casa de Josabete é uma das mais antigas do vilarejo. Tem oito cômodos e é toda de assoalho que produzem ruídos ao andar. Os móveis são antigos e a comida é feita sempre em fogão a lenha. A moradora aproveita os dias de sol para estocar lenha dentro da cozinha. Para ganhar um dinheiro extra, Josabete fabrica tapetes de retalho para vender para os turistas ao preço de R$ 9. A dona de casa não gosta muito de televisão; para ela, o bom é ouvir o radinho de pilha. “Pena que ele está estragado. Não vejo a hora de consertar”, disse. O marido e três filhos de Josabete trabalham em fazendas na região. Já a filha Maria Aparecida de Paula, 32, é responsável por limpar as duas igrejas e a escola. É dela também a responsabilidade de mostrar todo o arraial para os visitantes. Pelo trabalho, ganha um salário mínimo da Prefeitura de Sacramento. “Tenho sorte de ter conseguido esse trabalho, porque por aqui não tem emprego”. Maria Aparecida é casada com o lavrador Edivaldo de Rezende, 35. O casal morava em uma fazenda onde os dois trabalhavam. Há três anos, eles se mudaram para o Desemboque. “Tem muita gente que vai embora e a gente fez o contrário. Nos mudamos para o vilarejo e não pretendemos mudar para cidade grande. Aqui é muito tranqüilo e a violência que a gente vê que acontece por aí, passa longe daqui”, afirma Edivaldo. Um dos irmãos do lavrador se mudou para São Paulo há alguns anos e nunca mais voltou ao arraial, nem mesmo para visitar a família. “Ah! aquele não volta mais não. Disse que conseguiu emprego de modelo. Não sei. Eu quero mesmo é ficar aqui”, afirmou.

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