Mitos sobre mortos-vivos vagando pela terra existiram nas mais variadas culturas, mas os mitos eslavos sobre os vampiros são sem dúvida os mais ricos. Segundo as lendas, hereges, suicidas e sobreviventes de ataques de outros vampiros são sérios candidatos a se tornarem chupadores de sangue.
Nos países eslavos, mitos vampíricos foram inflados pela incompreensão de determinadas enfermidades não entendidas pela medicina rudimentar da época afetada pela superstição. A catalepsia, a raiva e principalmente a porfiria teriam sido as principais delas.
Porfiria é um distúrbio da biossíntesse do grupo heme, componente importante da hemoglobina, substância do sangue de cor vermelha, responsável pelo transporte de oxigênio às partes do corpo.
“A porfiria pode ser hereditária ou adquirida. Quando hereditária, geralmente está associada a casamentos consangüíneos. A forma adquirida geralmente se dá devido ao acúmulo de metais pesados, como o chumbo, no organismo”, explíca Livia Maria Cruz (foto), 19, estudante de Farmácia, pesquisadora da Fapesp na área de doenças do sangue e estagiária no laboratório de hematologia clínica da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, na USP-Ribeirão.
“A porfiria causa acúmulo de corpos porfirínicos na pele que absorve raios solares, causando graves queimaduras e úlceras, de modo que quem sofre desse mal não pode se expor ao sol. Ocorrem outras alterações na pele como a palidez e o crescimento exagerado de pêlos. Especialistas em história da medicina acreditam que a doença não esteja associada somente às histórias de vampiros, mas também à lenda do lobisomem”, conta Lívia.
Mas os problemas de pele causados por esse mal são apenas o começo das tormentas sofridas pelos que dele padecem. “A porfiria também causa aumento do baço, dor abdominal intensa, mau- hálito, distúrbios psiquiátricos, convulsões, coma, neuropatia periférica, hipertensão e taquicardia, deixa lábio e dentes avermelhados, vermelhos de sangue”, explica a jovem cientista. A ineficiência do sangue, como se fosse uma forte anemia, levava a pessoa a necessitar de alimentos com enorme quantidade de ferro, como sangue e carne crua, que aliviavam um pouco seu sofrimento.
Ao ver a pessoa cheia de úlceras e palidez extrema, sinais de decomposição, os europeus do leste não tinham dúvida, achavam que as pessoas eram mortos-vivos, vampiros, e cravavam uma estaca em seu coração.
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