Sábado de Carnaval. Ainda bem cedo, Paulo liga a televisão da sala e aumenta o som, acordando a mulher. Assustada, Margarida salta da cama e corre para ver o que está acontecendo. Assim que entra na sala encontra o marido com as mãos na cabeça, cabelos desalinhados, trêmulo. Margarida esfrega as mãos nos olhos, tentando entender o que está ocorrendo, quando Paulo a agarra e sacudindo-a, grita:
- Querida! Querida! Preciso de socorro. Por favor, me ajude.
- Que foi, Paulo? Estou morrendo de sono, abaixe esta televisão, por favor!
- Alguma coisa está errada. Você não ouviu um ruído estranho?
A mulher arregala os olhos, abaixa o som da televisão. Demonstra contrariedade, detesta ser acordada abruptamente. Responde ao marido:
- Qual o problema? Acabou o barulho, abaixei o som da televisão, desapareceu o ruído estranho.
- Incrível, Margarida, não sei o que dizer.
- Incrível é você me tirar da cama. Pensa que sou de ferro? Trabalhei ontem o dia todo. Quando cheguei do escritório fiz comida, lavei e passei suas roupas e você faz um escândalo desses me tirando da cama? Hoje é sábado de carnaval, estou de folga e quero dormir em paz.
- Calma, ele está se aproximando, meu Deus! Não se mexa Margarida.
- Que foi, diga logo, não me deixe nervosa.
- Psiu! Abaixe a voz, tem um crocodilo em cima do sofá.
- Ficou bobo, Paulo, que brincadeira mais sem graça essa.
- Juro meu bem, olhe para trás e veja com seus próprios olhos.
Margarida resmunga, fica chateada, mas acompanha o marido até perto do sofá.
- Onde está o crocodilo? Quer me perturbar, é isso?
Ele aponta com os dedos, a fisionomia é de terror:
- Ali, na nossa frente.
- Não vejo nada.
- Em cima do sofá.
A mulher pensa que o marido está tendo uma alucinação, vendo coisas estranhas. Resolve tranqüilizá-lo.
- Calma, calma, respire, vamos conversar. Quer um pouco de água?
- É a segunda vez que vejo esse crocodilo. Ontem ele estava na cozinha, dentro da geladeira. Quase me acerta uma rabada quando fui pegar o leite.
- Você está estressado, Paulo, procure se acalmar. Que tal uma fuga para o litoral? Neste Carnaval tem muita animação nas praias, vai ser divertido.
- De jeito nenhum, Margarida.
- Por quê?
- Não quero que se assuste, mas tem um polvo no banheiro do apartamento em Santos.
- Hummmm... Sei, um polvo.
- Enorme, com grandes tentáculos. Tenho que fazer alguma coisa para expulsar estes intrusos de nossas propriedades, me ajude Margarida. Cuidado, querida, o crocodilo se aproxima perigosamente.
- Vou chamar o doutor Francisco, ele é nosso amigo. Você precisa se cuidar, não está nada bem.
A mulher telefona e, em seguida, serve uma reforçada refeição matinal. Neste instante surge o médico. Informado dos acontecimentos, tranqüiliza o casal, depois de fazer alguns exames superficiais.
- Tudo controlado, pressão normal, apenas sensações de estresse.
Vou levá-lo para a clínica, três dias de repouso absoluto e Paulo estará bem.
- Vou ficar ao lado dele, doutor.
- Não, Margarida. Sonoterapia. Paulo vai dormir para se recuperar. Confie em mim, ele voltará inteiro na quarta-feira de cinzas.
Margarida, chorando, arruma as malas do marido, que sai acompanhado pelo médico.
- Parabéns, Chico, sua idéia foi genial. Deu certinho.
- Margarida caiu direitinho.
- Liberdade total para cair na folia.
- Alvará para você e para mim, que também sou filho de Deus. Minha mulher será informada que ficarei com você na clínica, cuidando de seu restabelecimento. Margarida mesma se incumbirá dessa missão junto a ela, com certeza.
- Em frente, amigo, as garotas nos esperam. Vamos cair na gandaia e aproveitar a folia.
- ... Tanto riso, oh! quanta alegria, mais de mil palhaços no salão...
EDWARD DE SOUZA é jornalista e radialista francano
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