‘Não foi blefe. Foi estratégia’


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Sidnei Rocha (PSDB) durante entrevista em seu gabinete: ‘negociação com Sabesp foi dura, mas nossa estratégia foi vencedora’
Sidnei Rocha (PSDB) durante entrevista em seu gabinete: ‘negociação com Sabesp foi dura, mas nossa estratégia foi vencedora’
<p>Uma jogada de R$ 30 milhões. Assim pode ser definida a estratégia do prefeito Sidnei Rocha (PSDB) nas negociações com a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico de São Paulo) para a renovação da concessão dos serviços de abastecimento de água e tratamento de esgoto em Franca. Após uma polêmica de mais de um ano, com passagens como o decreto que previa a ocupação da Sabesp, Rocha assume, com um mal-disfarçado orgulho, que não tinha a menor intenção de assumir e sim barganhar. “O único problema seria se a Sabesp entregasse o serviço. Mas não foi blefe. Foi estratégia”.</p> <p><br />O acordo será concretizado em 20 de março, em cerimônia com a presença do governador José Serra, amigo de Sidnei. Metade do valor - R$ 15 milhões - será repassada imediatamente, em massa asfáltica; R$ 5 milhões vão para obras de saneamento e combate às enchentes e os R$ 10 milhões restantes virão no longo prazo.</p> <p><br />Ele admite, porém, que ganhou mais que esperava. A Prefeitura poderia fechar o acordo por R$ 20 milhões. “Em um primeiro momento, não fecharia. Mas seria um valor viável”. Confira os principais trechos da entrevista. </p> <p><strong>Comércio da Franca - O senhor conseguiu R$ 30 milhões para assinar um contrato com a Sabesp, uma vitória política. Como foi o planejamento dessa vitória?<br />Sidnei Rocha</strong> - Foi uma negociação complicada. A Sabesp havia ganhado na Justiça disputas com outros municípios, que pleiteavam o mesmo que nós. A diferença é que nenhuma cidade antes admitiu que a empresa tinha créditos a receber. Todos diziam: ‘o serviço é meu e eu quero’ e a Sabesp respondia ‘não, porque o município nos deve’. Com essa experiência, tracei um caminho. Primeiro, nosso decreto ficou muito bom. Ele admitia que a Prefeitura pagaria os R$ 120 milhões que a Sabesp cobrava, mas mediante uma peritagem. Passamos a ter uma grande possibilidade de ganhar na Justiça. Ao admitir a dívida, fechamos a grande brecha por onde a Sabesp vinha ganhando todas as ações. Nosso planejamento foi todo em cima desse fato. </p> <p><strong>Comércio - Como se chegou a R$ 30 milhões?<br />Rocha</strong> - Mandei uma pessoa de minha confiança avaliar o valor da Sabesp de Franca. Concluímos que, no mercado, ela vale entre R$ 150 milhões e R$ 180 milhões. Considerando o valor mínimo, você tem R$ 120 milhões a pagar, que são, teoricamente, investimentos em estrutura que a empresa fez e não recuperou. Sobram R$ 30 milhões a que, em tese, teríamos direito. Ao analisar, percebi que eles eram acertados e que teríamos argumentos para uma briga boa. </p> <p><strong>Comércio - E como foram as negociações com a Sabesp? <br />Rocha</strong> - Existe hora de bater na mesa e hora de recuar. Negociações são assim. A ocupação foi uma atitude para marcar posição. De resto, as negociações foram tensas. Houve uma malfadada reunião em São Paulo onde me ofereceram um valor ridículo, R$ 11 milhões, em contrapartida. Eu levantei na hora e vim embora. Não deu nem para discutir. Foi um ato deselegante. Ligaram-me e disseram para ir a São Paulo que tinham uma contraproposta muito perto do que eu queria. Peguei o avião correndo e fui. Suspendi minha agenda, inclusive. Cheguei lá e disse: ‘muito bem, qual é a proposta?’. Quando disseram, levantei e vim embora. </p> <p><strong>Comércio - O senhor aceitaria menos?<br />Rocha</strong> - Bom, a gente sempre tem que negociar, porque senão é imposição. Endureci muito no valor global porque sabia que a Sabesp poderia não pagar em curto espaço de tempo. Tanto que, nos R$ 5 milhões em obras de saneamento, ela vai se valer de outras áreas do governo. Mas eu sabia que, se ofereceram R$ 11 milhões em um primeiro contato, a margem máxima de negociação seria de R$ 15 milhões, mais algumas contrapartidas. </p> <p><strong>Comércio - Digamos que a Sabesp oferecesse R$ 20 milhões. O senhor aceitaria a oferta?<br />Rocha</strong> - Não em um primeiro momento. Nas negociações posteriores, com alguma contrapartida, seria um valor possível de fechar sim. Comércio - O senhor tinha realmente intenção de municipalizar o serviço? <br />Rocha - Diretamente, nunca quis romper. Aliás, eu corria só um risco: o da Sabesp entregar. Por isso, o cuidado no decreto de que, se entregasse, tinha de deixar a estrutura. Na verdade, é o tipo de ação que você faz e torce para que o outro não aceite. Ao querer manter o serviço, a Sabesp ajudou nossa estratégia.<br />Eu nunca ia brigar com a Sabesp. Só expliquei para o Gesner (Oliveira, presidente da Sabesp) que nada me impedia de abrir licitação. Se não tiver acordo, vou abrir a licitação, ter a empresa particular vencedora, porque a Sabesp não pode entrar em licitação e só depois vou entrar na Justiça para vocês devolverem o que é meu. E mais: os R$ 120 milhões que vocês têm direito, vou colocar na licitação. A vencedora assume os R$ 120 milhões e paga R$ 30 milhões para a Prefeitura. Digamos que foi um risco. Mas negociações envolvem riscos. </p> <p><strong>Comércio - Então, o senhor blefou?<br />Rocha</strong> - Não blefei. Fiz uma estratégia de negociação baseada em dados de mercado suficientes para saber onde poderia endurecer. Tínhamos uma estrutura jurídica que nos favorecia e dados de mercado, mas não era fácil, pois na verdade não é uma negociação de R$ 30 milhões. Pegue esse total, somado a R$ 120 milhões, o valor da Sabesp, mais R$ 80 milhões da obra de captação do Rio Sapucaí,  já está aprovada, e você terá o tamanho da vitória de Franca. São R$ 230 milhões. </p> <p><strong>Comércio - E quando ofereceram o valor, o senhor fechou de imediato?<br />Rocha</strong> - Não, dei uma negociada ainda. Por exemplo, na questão da massa asfáltica. Disse  que não queria o material e uma empresa para trabalhar com ele. Eu tenho a Emdef e, com isso, dobro o volume de ruas asfaltadas pelo mesmo valor. Então, pedi para que me passem a massa asfáltica, ou então só o líquido, para eu misturar pedras aqui. Não há nada oficial ainda, mas ficaram de estudar. </p> <p><strong>Comércio - Se a Sabesp entregasse o serviço, o que o senhor faria?<br />Rocha</strong> - Eu teria que tocar. Por isso requisitei máquinas, caminhões e funcionários pelo decreto. Mas eles me atrapalhariam muito se entregassem, porque uma parte dos funcionários ia fazer greve, ia ser difícil por uns dias. Mas quando você resolve partir para um confronto desse tamanho, R$ 230 milhões, tem que estar pronto para tudo. Eu tinha certeza de que não iam entregar. Essa possibilidade era perto de zero. </p> <p><strong>Comércio - Sobre o dinheiro, quando chegará e como será aplicado?<br />Rocha</strong> - Primeiro lugar, é preciso dizer que nunca quis dinheiro. Pedi tudo em material, como asfalto e cimento. Assim, posso investir alguns recursos da Prefeitura e aumentar o total disponível para obras. Em 18 meses, serão R$ 20 milhões em material. Isso já acertei com eles. Desses, R$ 15 milhões irão para o recapeamento das principais avenidas e ruas. Não dará para recapear tudo, mas será importante. Os outros R$ 10 milhões serão parcelados. </p> <p><strong>Comércio - E dará para recapear quantos quilômetros?<br />Rocha</strong> - Não tenho o dado de imediato, mas, para recapear todos os lugares que precisam, seriam necessários R$ 90 milhões. Acredito que, com a verba, resolvemos 20% do total. </p> <p><strong>Comércio - E os R$ 5 milhões em saneamento, serão aplicados como?<br />Rocha</strong> - Acho que o melhor é aplicar nos córregos ou nas voçorocas. Vamos ver com a Sabesp o que é mais fácil para ela. </p> <p><strong>Comércio - Sua ligação com o governador José Serra ajudou no processo?<br />Rocha</strong> - Ajudou a partir do momento em que o Serra me disse que queria resolver logo os problemas da Sabesp. Só esse ano, ele renovou contratos com mais de 170 cidades. Essa postura dele ajudou. Agora, minha ligação com ele é ótima. Eu não conhecia o Geraldo Alckmin, isso só aconteceu na campanha. Agora, o Serra era secretário de Planejamento do ex-governador Franco Montoro na época que eu era prefeito. É uma amizade antiga. </p> <p><strong>Comércio - As prefeituras da região queriam dinheiro para assinar contratos com a Sabesp e não conseguiram. Isso pode criar ciúmes em relação a Franca?<br />Rocha</strong> - Não sei, não sei...Cada um tem que lutar pelo que é seu. Agora, uma coisa tem de ser entendida: Franca é hoje modelo para o mundo. Sempre vêm para cá japoneses, europeus e outros mais para conhecer e aprender, principalmente com nossa Estação de Tratamento de Esgoto. Fora a capital, a Sabesp tem hoje duas grandes cidades, que são Franca e São José dos Campos. As cidades vão ter que entender isso. E, por ser modelo, é evidente que a Sabesp tenha um carinho maior. </p> <p><strong>Comércio - O governador Serra tem um perfil centralizador, com tendência a tirar o poder do Interior e levá-lo para a Capital. Isso atrapalha Franca?<br />Rocha</strong> - São estilos de administrar, e eu respeito. Na realidade, não sinto essa centralização. Os contatos que tive até agora foram bem diferentes dos que tive no governo anterior. No governo Geraldo, os prefeitos não eram recebidos. Eu mesmo tomei um chá de cadeira de horas de um secretário, que nem apareceu em uma audiência marcada pelo governador. Não éramos maltratados, mas não tínhamos espaços. Era tudo centralizado no Alckmin. Na semana passada, falei com a atual secretária e ela me disse: “leva duas escolas e um ônibus”. É um atendimento muito mais ágil que no governo anterior.<br /></p> <p><strong>Comércio - Seu estilo de administrar é parecido com o dele?<br />Rocha</strong> - É. Aproximo-me dele em vários pontos, até no mau humor. </p> <p><strong>Comércio - Como anda sua relação com o deputado Marco Ubiali (PSB)?<br />Rocha</strong> - Ótima, sem nenhum problema. Inclusive fui solidário a ele naquele negócio de que ele iria mudar para Ribeirão quando falei não ter ouvido a informação dele. (Em entrevista ao Comércio no dia 2 de fevereiro, Rocha decla-rou não ter ouvido de Ubiali a informação, mas afirmou achar “estranha” a mudança e disse que  ela poderia “complicar a relação” do deputado com a cidade. Disse, ainda, que era uma decisão “a ser repensada”). </p> <p><strong>Comércio - E com os estaduais, Gilson de Souza (PFL) e Roberto Engler (PSDB)?<br />Rocha</strong> - O prefeito não pode ficar a reboque de deputados. Muitas vezes o próprio deputado quer isso, ou a imprensa quer isso. Não posso ficar esperando deputados. Até porque tenho um volume grande de trabalho. Não tenho restrições aos deputados, mas é que as necessidades são muitas e exigem ação rápida. Como tenho acessos a algumas áreas do governo mais facilmente, já toco isso. Fica parecendo que há distanciamento, mas não há. Pelo menos da minha parte não. Agora, não vou ficar esperando deputado para resolver os meus problemas. Os problemas de Franca são do prefeito. </p> <p><strong>Comércio - Qual foi o seu último contato com Souza e Engler?<br />Rocha</strong> - Foi recente. O Engler esteve aqui há uns 45 dias. O Gilson esteve no gabinete o dia que eu estava com o pessoal da Sabesp e não pude atendê-lo. Aí, estive com ele depois na rua. Mas ainda essa semana, ele estará com José Paschoal Ribeiro (chefe de gabinete) em São Paulo vendo o asfaltamento do Paiolzinho. Então, não há restrições, se quiserem trabalhar juntos, vamos trabalhar juntos, mas não vou fazer “beija mão” para o Gilson nem para o Roberto Engler. Não pode ficar nessa de “ai, eu dependo do deputado”. Eu dependo de mim. Se eles não quiserem trabalhar pela cidade, arrumo outro, de outra região. </p> <p><strong>Comércio - O senhor aceitaria ceder a gestão da Santa Casa para o Estado em troca da cobertura do déficit da instituição?<br />Rocha</strong> - Eu discuto. Não recebi essa proposta ainda, mas eu negocio. Negocio tudo. Vamos analisar a proposta e, se atender aos interesses de Franca, será tratada com carinho. </p> <p><strong>Comércio - O senhor não participou da caravana de prefeitos a São Paulo para pedir recursos para o hospital e foi criticado por prefeitos da região. Por que não foi?<br />Rocha</strong> - Foi estratégico. Os caras vão lá brigar mais uma vez com o Barradas, acampar no Palácio dos Bandeirantes, não vou mesmo. A decisão lá na frente será minha. Já fiz a bobagem de ir em caravana junto com a Santa Casa. Aí, chega lá, ela senta e fica quietinha e eu quebrando o pau com o Barradas, me desgastando de forma errônea. Quem vai negociar qualquer coisa na saúde regional? Sou eu. Então, resolvi me preservar. </p>

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