Religião


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Disse Shakespeare que há mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia. Há coisas para as quais estamos sempre buscando explicação. Os sonhos. A sensação de já ter vivido o momento presente. A alma. De onde viemos?, para onde vamos?, por que existimos?, entre outras, são perguntas que povoam a mente humana, dentro da sua limitada capacidade de compreensão do Universo e da vida. Um sentido para a existência terrena, fé para não sucumbir com nossa finitude ante o infinito cosmo, para ter uma base de sustentação, enriquecimento espiritual para lidar com as dificuldades da vida, para melhorar como pessoas, creio seja isso se busque ao adotar uma religião. Ou pelo menos deveria ser. Cada um é livre para exercer sua crença religiosa e essa liberdade é constitucionalmente garantida. No Brasil não há religião oficial nem exigência legal para que se siga uma. O pensamento é indevassável e não pode ser punido se se atém aos limites do intelecto, se não se transforma em ação legalmente proibida. Até porque há uma enorme distância entre o pensamento e a ação. Em criança freqüentei a igreja católica. Catecismo, primeira comunhão, missas, confissão. Ajudava o padre na celebração, lia trechos da Bíblia em voz alta, participava ativamente da liturgia, comungava. Foi assim até a adolescência. Depois fui minguando a freqüência, até desligar-me da religião. Não que me tenha desapegado de Deus. Não. É que percebi que para ter contato com Ele, pedir-Lhe força espiritual para enfrentar as adversidades, agradecer-Lhe pela vida e por tudo mais eu não precisava de hora marcada, templo, ritual, intermediário. Deus é onipresente. Ele me acompanhou nas horas difíceis, ajudou-me a vencer o medo quando aos catorze anos, de madrugada, entregava pães de bicicleta. Começava às três da manhã. Ruas sombrias, corredores escuros, silêncio. Uma casa ficava com a porta destrancada para que eu pudesse entrar na sala e deixar o pão sobre a mesa, perto de um piano. Imaginem isso hoje! Além disso, não imagino Deus como um ser vaidoso, egocêntrico, que quer idolatria, adoração, excesso de reverência. Deus é amor. Está sempre perto e pronto para ouvir-nos. É um ótimo confidente. Para mim o que vale são as nossas ações com as outras pessoas. Sendo a suprema grandeza, em vez de idolatria, Deus quer que sejamos fraternos, solidários, que amemos e ajudemos o próximo. De que adianta ir à missa, confessar, comungar, rezar, e no dia-a-dia agir de forma indigna? Mudar de calçada ao ver um pedinte? Brigar e até matar por coisas fúteis? Sempre querer levar vantagem? Falar com desconhecidos via internet e não conversar com o vizinho do lado? De que vale ser religioso e fugir do contato com pessoas mais simples, ser preconceituoso, arrogante, ter complexo de superioridade, tratar mal os filhos, praticar adultério? Não que todos os religiosos sejam assim. Mas o fato é que a maioria não absorve verdadeiramente os preceitos nem os põe em prática. Do contrário o mundo não estaria como está. Muitos políticos corruptos, comerciantes desonestos, traficantes, pedófilos, etc. também têm religião, freqüentam igreja, não em busca de redenção e crescimento espiritual, mas por pura conveniência social. É aquela aparente compunção dentro do templo, perante as imagens sagradas e a autoridade eclesiástica, mas fora da igreja... Já contei do pai evangélico que surrou a filha de 15 anos porque ela pôs brincos. Vejam quantas vezes o Romário faz o sinal da cruz num jogo. Chute errado, sinal da cruz; gol perdido, sinal da cruz. Mas e aquela agressão covarde contra o Andrei? Na oração do Pai Nosso se reza ‘perdoai os nossos pecados assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido’. Nós realmente perdoamos quem nos ofende? Não quero servir de exemplo. Cada um é livre para escolher. Nem todos tiveram a sorte de contar com pais e família como eu. Só acho que, religiosas ou não, as pessoas deveriam ser mais humanas, fraternas, solidárias, menos individualistas e materialistas, mais educadas. É disso que o mundo precisa para melhorar. A julgar pelo número de igrejas, o Brasil deveria ser o paraíso, com baixo índice de criminalidade e alto grau de civilidade. No lugar de muitas igrejas, principalmente dessas que só tomam dinheiro, eu gostaria mesmo é de ver boas escolas públicas. PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça

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