Quatro funcionários, um caminhão com capacidade para sete mil quilos e uma pá-carragadeira trabalharam na tarde de ontem na retirada de três toneladas de lixo da casa de uma senhora de 62 anos. Moradora da Rua Macapá, 871, a sapateira e catadora de papel acumulou restos de comida, papéis, plástico, sacolas plásticas, móveis velhos e muitos outros objetos durante um ano.
Suspeita-se que ela sofra da Síndrome de Diógenes, que geralmente acomete pessoas com mais de 60 anos que vivem sozinhas. A doença faz a pessoa perder a higiene e acumular grandes quantidades de sujeira.
A faxina e tentativa de eliminar o forte odor e bichos que procriaram no local começou ontem à tarde. Foram recolhidas cerca de três toneladas de lixo e ainda há muito para ser levado para o novo aterro sanitário. A Secretaria de Obras estima que serão necessários mais dois dias de limpeza. A senhora começou a guardar dentro da casa, mas depois que os três quartos, sala e cozinha ficaram lotados, passou a acumular a sucata no quintal.
A casa estava trancada. Os funcionários da Prefeitura precisaram derrubar o muro com a pá-carregadeira para ter acesso ao quintal. O mau cheiro podia ser sentido de longe. Vizinhos disseram que era comum verem ratos transitarem pelas ruas, baratas e pernilongos invadirem suas casas.
O neto da senhora, Alisson Teodoro, 19, sapateiro, que acionou a Prefeitura para ajudar a faxinar a residência da avó, disse que ela pegava lixos na cidade toda, carregando os sacos cheios, restos de fogão e outros lixos nos braços até mesmo dentro de ônibus. “Minha avó ama o lixo. Foi difícil convencê-la a se livrar disso tudo. Aproveitei que ela está trabalhando para tirar. Não sei qual será a reação dela.”
Alisson, com ajuda da amiga Maisa Carvalho, comerciante e radialista, procuraram o Cras (Centro de Referência e Assistência Social) da região leste para conseguir transporte para o lixo. Ontem, o neto chamou alguns amigos e, em mutirão, fizeram parte da limpeza da casa. “Nosso medo era que ela morresse no meio do lixo e ninguém percebesse ou que alguém colocasse fogo nesse monte de lixo. Ela guarda lixo com sentimento”, disse Maisa. “A intenção é preservar a saúde dela e a dos vizinhos. Levamos tempo para convencê-la a se livrar daquela sujeira”, disse a assistente social do Cras, Carmem Mendes, que acompanha a senhora desde maio de 2006.
MONITORAMENTO
Os exames médicos para confirmar se a catadora de papel sofre da Síndrome de Diógenes ainda não foram feitos. “Suspeitamos apenas, pois ela própria conta que tem necessidade de guardar o lixo com medo de privações futuras. Na mente dela, poderá vendê-lo se precisar de dinheiro algum dia.” Na tentativa de mudar a relação dela com o lixo, o Cras conseguiu emprego na Cooperfran. “Lá ela deve aprender como separar materiais recicláveis.”
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.