Causou-me perplexidade matéria publicada no jornal Comércio da Franca do último dia 11 de fevereiro, em que o sr. José Cândido Chimionato, atual e único candidato a provedor da Santa Casa de Franca, refere-se à minha pessoa dizendo: “Essas acusações partem de uma parte ínfima dos médicos, que está afastada do dia-a-dia no atendimento. Isso é mais uma questão política do que qualquer coisa”.
Ora, senhor candidato, como pode formar opinião sobre uma pessoa que nem conhece? Aliás, se fomos apresentados, me perdoe porque não me lembro! Penso que eu não o co-nheço ainda. Como pode dizer que estou afastado do dia-a-dia do atendimento se trabalho como médico o dia todo? E, à noite, muitas das vezes! Será que não é o senhor que está afastado do contato social e não percebe que os médicos da Santa Casa se entregam de corpo e alma a esta pientíssima instituição?
Senhor futuro provedor, saiba também que das questões políticas vivemos diariamente. Enquanto candidato e, quiçá em breve, como provedor, o senhor deve fazer política e, preferencialmente, de qualidade, já que se não a fizer, não estará tratando essa ciência como a arte de bem go-vernar os povos, pois é este o conceito de política. O senhor já deve saber que o homem é um animal político e, para sobreviver, deve exercer política cons-tantemente, em casa, no trabalho, na rua e em todos os ambientes que freqüentar. Tomara mesmo que te-nhamos, ao longo de nossas existências, muitas questões políticas a serem resolvidas, e tomara que nossos pensamentos sejam divergentes para que, ao final, convirjam ao bem comum. Tomara! Senhor candidato, essa mesma frase, citada no primeiro parágrafo deste texto, que demonstra o seu total desconhecimento para com minha pessoa, causa-me ainda maior surpresa quando diz que “essas acusações partem de uma parte ínfima dos médicos”.
Ora, ora, senhor candidato, ínfimo foi o número de pessoas que se levantou contra as atrocidades de Hitler, quando a maioria o apoiava. E depois, o senhor bem sabe, esta parcela diminuta da população provou ao mundo todo que o líder nazista era também um exterminador de raças.
O átomo também é ínfimo, porém sem ele não haveria molécula, e conseqüentemente inexistiria qualquer corpo, matéria. A célula é ínfima, no entanto, é ela a unidade estrutural e funcional, básica dos seres vivos. O zero, à esquerda, é ínfimo, mas dê-lhe a chance de saltar à direita, que se transforma em dezenas, centenas, milhares... Quanto será preciso para deixar de ser íntimo?
Ser incluído no rol dos ínfimos chega a ser honroso. O adjetivo ínfimo tem como antônimo o supremo, o sumo, e a vida nos mostra que, muitas das vezes, vamos do ínfimo ao supremo em um piscar de olhos. Como pode perceber, ser uma parte ínfima não é tão degradante assim! Ser uma parte ínfima é também estar destacado do grupo maioral e, nem por isso, menos importante. Aliás, estar destacado já confere um certo grau de relevância.
Ínfimo, senhor candidato, de tão inferior, é o tempo que não pode ser medido entre o início de uma vida ou o seu repentino fim e, no entanto, é com este tempo ínfimo que nós, médicos, tomamos decisões que possam prolongar vidas, mantê-las ou me-lhorá-las, através do modo correto e preciso do agir de um médico. Mas, que ínfimo tempo foi esse que o se-nhor levou para decidir sobre quem sou ou deixo de ser?
Mas, mesmo assim, senhor futuro provedor, quero desejar-lhe uma profícua gestão à frente da Santa Casa, e caso necessite contar com qualquer ajuda, por mais ínfima que seja, quero dizer-lhe que estava, estou e sempre estarei à disposição daqueles que desejam o melhor para o ser humano.
MARCO AURÉLIO PIACESI é presidente do Sindicato dos Médicos de Franca e ex-secretário da Saúde.
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