‘Os deficientes são capazes’


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Professora de educação física, Marta Maria Campos Cardoso trabalha há mais de 20 anos na Apae de Franca e ensina a alunos com paralisia cerebral e síndrome de Down modalidades esportivas: “O estímulo é o ca
Professora de educação física, Marta Maria Campos Cardoso trabalha há mais de 20 anos na Apae de Franca e ensina a alunos com paralisia cerebral e síndrome de Down modalidades esportivas: “O estímulo é o ca
<p>Romper preconceitos, vencer limitações e provar que os deficientes são capazes é o desafio de Marta Maria Campos Cardoso, 42. Professora de educação física, ela luta há 21 anos para provar o potencial das pessoas especiais atendidas na Apae (Associação dos Pais e Amigos do Excepcional) de Franca. </p> <p><br />Marta foi a primeira professora contratada pela entidade. As mais de duas décadas de trabalho com deficientes foram suficientes para que o receio, insegurança e despreparo fossem substituídos pela motivação e pelos resultados positivos. “Eu tinha medo deles. Quando era adolescente, via o ônibus da Apae passar na rua da e abaixava para me esconder”, lembra. </p> <p><br />A vontade dela é evitar que outras pessoas tenham reações como essas. “Acredito que o esporte para o portador de deficiência é um grande caminho. As pessoas se preocupam mais com o ler e escrever, que, claro, é importante, mas não é tudo. É preciso somar”. </p> <p><br />Com dedicação e esforço, Marta espera realizar seu grande sonho. “Quero uma pista de atletismo na Apae para todo mundo que passar de carro ver os meninos correndo e fazendo esportes”. Confira um pouco da história de Marta Cardoso no trabalho com deficientes mentais e portadores da síndrome de Down. </p> <p><strong>Comércio - Como é trabalhar com alunos especiais?<br />Marta</strong> - É um trabalho desafiador. Há alguns anos, não tínhamos sequer material de referência. Com o tempo, pesquisadores lançaram publicações sobre o assunto e, com a convivência, também aprendi a entrar nesse universo. O contato com outros profissionais, a participação em congressos na área e cursos são essenciais. Outro ponto importante é a capacidade de aprender sempre. Eu aprendo muito com eles. Se você chegar e deixar o aluno de lado, ele fica parado. Se você ousar, testar, percebe que tem condições, que são capazes. </p> <p><strong>Comércio - Quais as maiores limitações dos deficientes?<br />Marta</strong> - Na verdade, não são muitas. A atividade física é algo prazeroso para eles. O grupo é muito heterogêneo e cada um tem uma limitação: às vezes é só aprendizagem, em outros casos é a aprendizagem associada à parte física, à síndrome de Down. Na Apae, temos a educação física e treinamentos. Dentro da educação física, o professor procura fazer com que todos trabalhem juntos. Às vezes, pela heterogeneidade do grupo, é preciso ter jogo de cintura. Por exemplo, se alguns são cadeirantes, temos de criar situações em que um ajuda o outro, integrá-los mesmo.<br />Os alunos que se destacam nessas aulas, que têm melhor desenvolvimento, são encaminhados para o Projeto Portal, que mistura esporte e música. Uma vez por semana, preparamos essas crianças para representar a Apae em outras cidades com apresentação de dança, música e esporte. O Portal oferece fanfarra, dança, futebol, basquete, vôlei e artes cênicas. Oferecemos natação durante uns cinco anos, mas precisávamos nos deslocar para clubes e acabamos suspendendo pela dificuldade de transporte. Meu sonho é ter uma piscina na Apae para a parte de iniciação e treinamento. </p> <p><strong>Comércio da Franca - Como surgiu a oportunidade de dar aulas de educação física na Apae?<br />Marta Cardoso</strong> - Tinha acabado de me formar e fui convidada para trabalhar lá. Era amiga do presidente e iniciei os trabalhos de educação física lá. Quando entrei, foi muito difícil. Sofri muito, pois não entendia sobre atividade física com alunos deficientes, não tinha a quem recorrer. Naquela época, não existia bibliografia a respeito da deficiência mental e não aprendi nada a respeito desse tipo de trabalho na faculdade. Lembro-me que com dez dias de Apae, me colocaram dentro de um ônibus e me mandaram para Bauru numa olimpíada estadual. A assistente social, mesmo sem entender nada, selecionou os meninos e montou um time de futebol e atletismo. Ela misturou crianças com PC (paralisia cerebral), com deficientes mentais e portadores de síndrome de Down. Fiquei desesperada. Só chorava. Hoje, vejo essa “aventura” como algo que me motivou a persistir. Agora, participamos de olimpíadas, sempre viajamos para os campeonatos e chegamos a ficar dez dias fora para competir. </p> <p><strong>Comércio - Que técnica exatamente a senhora segue?<br />Marta</strong> - Não existe uma técnica. É algo do momento. Vamos testando meios até eles se adaptarem. Alguns alunos têm mais dificuldades de acompanhar os movimentos na dança. Neste caso, combinamos das colegas darem um sinal, como um estalo de dedos na hora de dar um passo para frente.<br />É uma questão de estimular. O estímulo é o caminho. Se você não incentivar quem tem síndrome de Down, a pessoa ficará passiva, mas a partir do momento que é motivada, desenvolve-se. Por isso, a família se torna muito importante nessa hora. Os pais precisam incentivar a independência com troca de roupas, escovação dos dentes...  </p> <p><strong>Comércio - Quais os benefícios da atividade física para os deficientes? Para eles, é lazer ou tratamento?<br />Marta</strong> - Acho que é tudo. Eles amam esportes, superar limitações. São muitos ganhos. A auto-estima é o principal deles. Ela fica elevadíssima e, com o tempo, isso vai enriquecendo a vida de cada um, eles próprios percebem que são capazes. Além disso, a musculatura dos portadores de síndrome de Down, por natureza, é mais flácida. Praticando exercícios regularmente, é possível deixá-la mais fortalecida. A tendência à obesidade é outra característica comum entre eles. Com exercícios, evitam o ganho excessivo de peso. </p> <p><strong>Comércio - Existe algum caso pontual da evolução de um dos seus alunos?<br />Marta</strong> - Uma delas, que tem síndrome de Down, perdeu a mãe quando bebê e foi criada pela irmã, numa educação muito rígida. Era uma criança extremamente tímida, não conversava, ficava sempre com olhar baixo. Com o esporte, foi se soltando, evoluiu nas atividades físicas. Ela se mostrou uma revelação no atletismo; apresenta grande velocidade na corrida de cem metros e corre com técnica. Ela já sabe se alongar sozinha e também joga basquete, vôlei e aprendeu a nadar. Ela está com 22 anos e pratica as atividades desde os nove. Tem outro aluno, de 23 anos, que possui déficit mental, não consegue ler nem escrever. A dificuldade de alfabetização o deixou muito revoltado e violento. O esporte foi uma vitória para ele. Os exercícios físicos mostraram que ele tem outras qualidades. </p> <p><strong>Comércio - Como são as competições?<br />Marta</strong> - Elas são organizadas pelas Apaes, pela Federação das Apaes dos Estados, pela Apae nacional e outros órgãos. Existem as provas tradicionais - nados, cem metros, 200 metros - e as adaptadas, dependendo do campeonato. Nos regionais, por exemplo, podemos reduzir os tempos das provas e incluir modalidades adaptadas, como mergulhar e pegar um peso, caminhada na água, atravessar a piscina com pranchinha, corrida de muletas e de cadeirantes. São situações criadas conforme o grupo que você tem. Em competições oficiais, com regras oficiais, o nível dos atletas é maior. </p> <p><strong>Comércio - Franca tem destaques nas competições?<br />Marta</strong> - Em 2006, seis alunos nossos foram convocados pela seleção paulista para a olimpíada nacional: três no futebol de campo e três no atletismo. Temos muitos troféus. Na região, somos uma equipe muito forte. No ano passado, fomos campeões em quase todas as modalidades. </p> <p><strong>Comércio - A senhora trabalha na Apae desde 1986. Que mudanças ocorreram neste período?<br />Marta</strong> - O comportamento dos pais mudou. Ainda há resistência, mas eles estão conscientes da importância do estímulo. A evolução da medicina e abordagens pela mídia incentivam as mães a levarem os filhos ainda bebês para estimulação precoce. Antes, os pais chegavam a esconder os filhos deficientes. Hoje, com dois, três dias, um bebê já costuma fazer parte do grupo de estímulos na Apae. Os pais precisam acreditar mais nos filhos, têm de apoiá-los. Os deficientes não são monstros. São maravilhosos.</p>

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