Pode-se presenciar cenas de abuso e desperdício em qualquer parte. Dá muita indignação ver gente lavando calçadas, ao invés de varrê-las, com uma mangueira em riste esbanjando desregradamente o bem mais precioso para uma sociedade: a água.
Não me contive. Abordei algumas delas, dando-lhes informações e fazendo advertências a respeito da ação que exerciam. Tal invasão de privacidade me rendeu alguns sorrisos e muitas torções de nariz. Acho que, diante das senhoras que lavavam suas calçadas, o jovem rapaz de cabelos desgrenhados e vestimenta suspeita fosse mais um dos muitos profetas que andam por aí. Na época em que fiz isso, minha ação tinha mesmo um quê de profecia porque eu mesmo ainda não soubesse que dali a alguns anos, a cidade passaria pelo caos de inundações sucessivas e, estranhamente, acabasse por ficar sem água, com sede. Algo como “com sede, morrerás afogado” ou “morrerás de sede, circundados por água”.
Cada rio, córrego, curso d’água, possui em suas margens área com extensão coerente a seu tamanho, a chamada planície de inundação, ou seja, a área que é alagada ou ocupada nos períodos chuvosos. Tal ocupação é natural, pode ocorrer com freqüência ou pode passar várias estações chuvosas sem que ocorra, tudo depende da intensidade da chuva ou vazão das águas para os rios maiores.
O que ocorre nas várias cidades vítimas de inundação (a exemplo de Franca), é que a grande ocorrência e extensão das áreas concretadas e asfaltadas impede a infiltração da água no solo, direcionando-a aos locais onde ela possa escoar. Em resultado, aumentam hoje o volume dos cursos d’água maiores e, à falta das planícies de inundação, invadem o que estiver pela frente.
O prefeito deve sim procurar soluções para o problema, mas à população cabe grande parte da responsabilidade. A adoção de calçadas ecológicas é um trunfo adequado. Nelas, ao lado da parte impermeabilizada, colocam-se áreas de ajardinamento, com vegetação e gramados capazes de garantir infiltração da água no solo, diminuindo assim o escoamento para os córregos da cidade.
Isso é medida de prevenção e não solução para todos os males.
Outra medida potencialmente efetiva, que pode ser adotada pelos órgãos de gestão da cidade é a contenção dos desmoronamentos rotineiros das calhas dos córregos e combate à erosão na porção após a cachoeira da região central da cidade. O que pode ajudar a resolver isso é o plantio de árvores com raízes profundas e não apenas coqueiros que não possuem raiz principal e apenas adventícias, fracas para a tarefa de contenção do solo. As espécies com raiz principal, sempre muito profundas, seguram grandes blocos de terra com suas ramificações. Ajudariam, ainda na melhoria da estética da cidade. Independente da quantidade de pedras e concreto fixados nas calhas dos córregos (perdoem-me os engenheiros) as paredes continuam bastante vulneráveis. De triste memória, as obras do Metrô de São Paulo estão aí para lembrar que apenas concreto não basta. O reparo a danos ou prejuízos causados por uma árvore bem como as atividades referentes ao plantio são bem mais baratos e fáceis de realizar do que obras de contenção.
CAIRO FALEIROS DE FIGUEIREDO é francano, graduado em Biologia pela Unifran
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