Temporais recorrentes, chuvas acima da média, cidades arrasadas, casas alagadas, pontes desmoronadas e muita destruição... Afinal, o que está acontecendo com o clima? A reportagem do Comércio consultou cinco especialistas para entender as mudanças climáticas, principalmente, as tempestades vividas desde dezembro na região de Franca. Os entrevistados apresentaram basicamente quatro justificativas: a urbanização das cidades, o fenômeno chamado ilha de calor, que se caracteriza pelo aquecimento do interior das cidades, efeito estufa e El Niño. E, para quem não aguenta mais a chuvarada, os problemas climáticos não devem acabar tão cedo. Tempestades seriam apenas um deles. Para os próximos anos, ainda estão previstos longos períodos de seca e dias muito quentes, com temperaturas acima da média.
Ariclenes Polo Souza, geógrafo, mestre em climatologia e professor do curso de Geografia da Unifran, disse que os fenômenos vistos nos últimos meses não são novidade. A tendência, segundo ele, é a de que de 10 em 10 anos, haja chuvas fortes durante dois, três anos seguidos e um período de seca intensa. “É normal, mas muitos têm tratado como se nunca tivesse acontecido temporais como os de agora. Já ocorreram outras chuvas fortes e por vários dias seguidos em 96, 97, mas a população não se lembra. As pessoas ficam presas aos prejuízos e destruição sofridos no momento.”
A informação do professor pode ser confirmada por notícias publicadas pelo próprio jornal Comércio da Franca. A manchete do dia 7 de janeiro de 97 dizia: “Chuvas intensas provocam muitos estragos e preocupam população de Franca e região” ao noticiar que a ponte da rodovia que liga as cidades de Rifaina e Igarapava havia cedido e o tráfego precisou ser desviado, casas foram desocupadas com risco de cair, houve alagamentos e as ruas ficaram danificadas. Duas outras reportagens, de 25 de janeiro e 1º de março daquele ano, registraram enxurradas, problemas no Córrego dos Bagres, transbordamentos na Hélio Palermo e muitos prejuízos causados por fortes temporais.
Agora, o volume de chuva está ainda maior, o que altera o impacto das águas nas áreas urbanizadas. “Hoje as cidades cresceram, a impermeabilização das ruas está maior e as galerias não suportam a quantidade de águas pluviais e se rompem. Para piorar, o solo arenoso de Franca é fraco e sofre erosões”, disse Ariclenes.
A cidade ainda é vítima de outro fenômeno: a ilha de calor, que acentua as precipitações. O interior da cidade tende a ser mais quente devido às edificações e asfalto que absorve mais calor e deixa o ar mais quente. Ao subir, essa massa quente se choca com áreas de instabilidade e deságuam com intensidade. “A temperatura elevada na terra é combustível para a formação de nuvens carregadas.”
MAIS INTERFERÊNCIAS
Outras condições climáticas contribuem com um verão atípico (mais chuvoso que o normal) na região Sudeste do Brasil. Todos os especialistas consultados citaram o efeito chamado “Zona de Convergência do Atlântico Sul” como responsável pela chuvarada no Estado de São Paulo. É exatamente sobre as cidades paulistas que a umidade vinda da Amazônia e massas de ar do oceano se encontram. O choque delas resulta em temporais.
Tais massas oceânicas também chegam com características alteradas. A bióloga e professora de Ambiente e Promoção em Saúde da Unifran, Mônica Morraye, disse que o efeito estufa derrete as calotas polares e esfria as águas dos oceanos, que mudam o clima. “O aquecimento global provocado pela alta emissão de gás carbônico, queimadas e desmatamento impede que o ar quente se disperse para a atmosfera. Preso na Terra, provoca sérios problemas. Todo mundo, inclusive Franca, já está sentindo as causas do aquecimento global.”
O meteorologista do Climatempo, André Madeira, relaciona o “inchaço” no volume de águas ao El Niño, fenômeno de aquecimento das águas do Oceano Pacífico. “O El Niño não está muito intenso neste ano, mas favorece chuvas sobre o Estado de São Paulo.” Segundo ele, o fenômeno dificulta a dispersão de uma massa de ar quente e de alta pressão sobre o Nordeste do Brasil e essa impede a passagem de frentes frias. Paradas sobre o Estado de São Paulo, aumentam a instabilidade e trazem mais chuvas.
Éster Ito e Franco Vilela, meteorologistas do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), não discordam de Madeira, mas acham cedo para atribuir o maior volume de chuvas sobre a região ao El Niño. “Acho prematuro atribuir as variações climáticas ao fenômeno do Pacífico”, disse Éster.
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