Usar e abusar da camisinha?


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Franca e outras cidades brasileiras já estão exibindo out-doors assinados pelo Ministério da Saúde com a mensagem: "Use e abuse da camisinha neste carnaval". O presidente Lula investiu R$ 300 milhões na compra de 1 bilhão de camisinhas para serem distribuídas durante o carnaval, a fim de atenuar a epidemia da gravidez precoce. A camisinha é uma faca de dois gumes, pois, se de um lado contribui para evitar doenças, de outro estimula rapazes e moças a pensar que podem transar à vontade. É isso que se entende da publicidade. A experiência tem demonstrado que a camisinha não é um recurso tão seguro para evitar gravidez e doenças sexualmente transmissíveis, pois ela tem micro-perfurações. E, durante o ato sexual, pode romper-se diante da força ou da intensidade do prazer sexual. Em conseqüência, aparecem ao ano um milhão de mães com menos de 18 anos, sem condições para sustentar bebês. Sem alternativas, elas transferem o ônus da criação à sociedade. Como o ato solidário não é ainda aceito por todos, e parte da população entende que a culpa é do governo, esses bebês viram nada nas ruas, onde se prostituem, usam drogas e engrossam a violência. É nesse momento que nasce o choque com a vida: a criação de um ser humano, o mais extraordinário empreendimento do homem, se volta contra ele: pais de família são assassinados em assaltos ou invasões de residências por meninos frutos de gravidez precoce ou por aqueles que não tiveram acesso à educação. A distribuição de camisinhas é um estímulo à imaginação de adolescentes que ainda não sabem distinguir o mundo real do mundo da fantasia. E a gravidez precoce é uma agressão à consciência destes jovens que interrompem o curso natural da vida, deixando para trás os sonhos da infância e a escola. Muito mais do que a falta de informação, a gravidez na adolescência está ligada às características dessa fase da vida. A onipotência do “comigo não acontece”, a impetuosidade do “se der errado, depois a gente vê”, a busca de identidade no ‘se eles acham que isso é certo, eu faço o contrário”, a energia de “vamos ver o sol nascer depois a gente vai direto para aula”... Junte-se aí o pouco ou nenhum diálogo com a família e a angústia do conflito entre o desejo e as conseqüências, para que a gravidez aconteça. Pelo modo como a campanha será desenvolvida pela mídia a pergunta que pode surgir é: o que há de errado em preservar a juventude da Aids? O equívoco não está no objetivo da campanha. É lógico que o governo e todos nós devemos lutar contra esse mal que ceifa anualmente milhares de vidas no mundo, com um grande percentual de adolescentes e jovens, além de crianças que já nascem contaminadas. O equívoco das campanhas - e até a sua irresponsabilidade - está no fato de que, na prática, elas induzem os jovens a uma vida sexual desregrada, infundindo neles a confiança de que, com o preservativo, eles estão completamente imunes. E isso não é verdade! Mesmo se o preservativo fosse 100% seguro, a sua utilização continua um risco devido à possibilidade de uso inadequado ou de rompimento. Além disso, a unanimidade em relação à segurança máxima do preservativo está longe de ser consenso como afirmam pesquisas que estranhamente não chegam ao conhecimento da opinião pública. Entendo que não é com a compra de 1 bilhão de camisinhas ao custo de R$ 300 milhões que se resolverá o problema da gravidez precoce. Mas por meio de uma política maciça de educação, cultura, investimento público e geração de empregos, em que os jovens possam tomar consciência da sua presença no mundo. E possam entender, inclusive pelo passado de outros homens e mulheres que, mais do que o sexo, a matéria-prima do prazer é uma profissão, um salário e bom senso. EDWARD DE SOUZA é jornalista e radialista francano.

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