Quatro de fevereiro. Marcela de Jesus Galante Ferreira completa hoje 75 dias de vida. Nada mais normal para um recém-nascido que está crescendo. Mas para Marcela é diferente. É uma vitória.
Para a mãe, Cacilda Galante Ferreira, só há motivos para comemorar. Ver a filha chegar tão longe reforça os sentimentos de que ela fez a escolha certa ao decidir que não interromperia a gravidez mesmo sabendo que teria uma criança anencéfala (sem cérebro).
A semana em que Marcela ultrapassou a barreira dos 70 dias foi considerada tranqüila pela médica-pediatra Márcia Barcellos, que acompanha o bebê desde o nascimento na Santa Casa de Patrocínio Paulista. Durante todo o mês de janeiro, Marcela apenas ficou gripada. Durante uma semana, espirrou e tossiu. “Fizemos um tratamento com antibiótico e, nesta semana, ela não teve problemas”, disse a pediatra. Marcela não voltou a mamar no peito. Ela continua recebendo 35 ml de leite por meio de uma sonda.
Mesmo sem expectativas de um dia poder levar a filha para casa, Cacilda disse que não está triste. “Evito ficar chorando. Também não entro em depressão com tanta freqüência. Na verdade, estou feliz que minha filha ganhou peso nos últimos dias. Para mim, isso sim é motivo para comemorar”, disse ela, ao se referir aos cem gramas que Marcela ganhou depois de sarar da gripe. Ela está pesando 2,9 quilos e medindo 50 centímetros. A dona de casa também não gosta de fazer previsões sobre o tempo de vida da filha. “Para mim, ela vive um dia após o outro”. Já especialistas no assunto dizem que o bebê não viverá mais que quatro meses.
Cacilda prefere dizer que está mais independente. “Agora sou eu quem dou banho na minha filha. Também aprendi a controlar o oxigênio dela e, quando precisa, a dar remédio”, diz, orgulhosa. Até pouco tempo, tudo isso era feito pelas enfermeiras da Santa Casa.
Marcela só fica sozinha quando a mãe sai para ir à farmácia comprar fralda ou para visitar as mulheres que dão à luz na Santa Casa. “Elas sempre me falam que não teriam a força que estou tendo, mas teriam sim. Só quem é mãe arruma força para passar pelo que estou passando. É instinto maternal”, afirma.
Enquanto Marcela dorme no berço, Cacilda aproveita para colocar todo o sentimento no papel. Ela está escrevendo um diário. Ela diz que não pretende publicar um livro. “São apenas lembranças que quero guardar”.
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