"Eles não respeitam os limites. Se acham os donos do mundo. Saem de casa sem avisar. Ficam três, quatro dias fora. São agressivos." A frase do conselheiro tutelar Lucas Verzola sintetiza o perfil dos menores rebeldes na cidade. A "rebeldia", aliás, lidera as estatísticas do Conselho Tutelar. Em 2006, foram 932 casos, o que significa que, mensalmente, mais de 77 pais, avós e outros responsáveis pediram socorro aos conselheiros para lidar com menores indisciplinados.
Os problemas mais comuns foram protagonizados por adolescentes, especialmente homens, com idades de 13 a 17 anos, mas crianças menores de 12 anos também se recusaram a ir à escola, perderam os limites dentro de casa, tiveram atitudes violentas, saíram à noite para boates, ficaram dias sem dar notícias, além de terem furtado os próprios familiares para pagar lan houses ou comprar drogas. "Eles furtam dinheiro da mãe, avós, irmãos ou objetos de suas casas para vender. Sem conseguir controlá-los, pais e avós ficam reféns dos adolescentes rebeldes. Nesta semana mesmo, atendi uma senhora de idade, com uns 70 anos, que denunciava os dois netos por xingá-la e ameaçavam agredi-la. Eles perderam os pais e são criados por ela", conta Lucas.
Diversos fatores influenciam no comportamento dos jovens. Em certos casos, a culpa pode ser dos pais, segundo os conselheiros. A adolescência é um período difícil, mas muitos deles não sabem lidar com essa fase e não dão atenção aos jovens. "Falta diálogo nas famílias. Na maioria das vezes, ao advertir os filhos, já chegam brigando. Os jovens sentem falta da conversa e acabam se rebelando. É possível conversar sobre a rebeldia deles e tentar resolvê-la. É preciso saber pressionar nos momentos certos", disse o conselheiro. A diretora da Escola "Ângelo Scarabucci", Maria do Carmo Fernandes, concorda. "Notamos que estão sem limites. Antigamente não era assim. Hoje não se respeita mais o professor; a educação do lar está deficitária, pois os pais saem para trabalhar e não dispensam atenção necessária aos filhos."
Quando não conseguem controlar a situação, os pais e responsáveis pelos menores recorrem ao Conselho Tutelar na tentativa de "colocar os filhos na linha". Mas obter bons resultados é um desafio. "Se o próprio pai e mãe, que têm obrigação e `poder` de fazer o filho estudar, ser educado e obedecer ordens, não conseguem, como o Conselho vai resolver? Mas como o desespero dos pais é muito grande, eles nos pedem socorro e nós tentamos ajudá-los", disse Lucas Verzola. "Nem sempre nosso apoio resolve. Muitos chegam aqui, ouvem, assinam o documento e quando saem pela porta parecem esquecer tudo que dissemos", completou.
Ao denunciar, os pais costumam levar os filhos. Se não o fazem, o Conselho convoca os menores para adverti-los sobre as conseqüências que a rebeldia pode provocar em suas vidas e nas dos familiares. "Os dois lados serão prejudicados se forem internados numa Febem ou Alan Kardec, por exemplo."
Os que precisam são encaminhados para psicólogo, pois a revolta pode ser resultado de algum trauma. Somente o especialista poderá detectar o problema e tratá-lo. O Conselho mantém convênio com o Naia (Núcleo de Atendimento à Infância e à Adolescência) e ONGs para assistência gratuita aos filhos e pais.
DRAMA FAMILIAR
Num dos atendimentos prestados no fim de 2006 foi exatamente um trauma que provocou mudanças nas atitudes de um garoto de 13 anos. A mãe dele morreu e, como não vivia com o pai nem tinha contatos com familiares, ficou sob a guarda de um amigo da mãe dele, mas a convivência ficou conturbada. Ele não aceitava ser criado por ele, vivia triste, trancado no quarto, xingava e agredia o rapaz. "Ele chegou a arremessar vasos e um videocassete contra ele. Sem saber como agir, o `pai` adotivo nos procurou e fizemos o encami-nhamento para o psicólogo", disse Lucas Verzola. O jovem deverá se encontrar com os conselheiros tutelares nos próximos dias. "Acredito que tenha mudado de atitudes, mesmo porque não fomos procurados novamente pelo amigo da mãe dele", disse Lucas.
Os menores revoltados ainda estão sujeitos ao distanciamento da família. Renata (nome fictício), 17, mora no Abrigo Provisório desde maio de 2006. Natural do Paraná, veio morar com a irmã em Franca depois do pai ficar doente. Mas a convivência entre elas foi conturbada. "Não aceitava o jeito que ela tratava eu e meus irmãos, era brava. Me revoltei." Adair Carvalho, diretor do Abrigo, disse que Renata brigava com os parentes, era agressiva, impaciente, andava em más companhias, jogava pedras na casa e passou a usar drogas. Ela acabou saindo de casa para morar na rua. O Conselho Tutelar a encaminhou para o Abrigo. Hoje, passa por tratamento no Caps (Centro de Apoio Psicossocial). "Está melhorando, ficando mais calma." Talvez Renata seja levada para morar com a madrinha no Paraná. "Aqui está melhor", disse ela. O juiz decidirá seu futuro.
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