Relações Humanas


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Por que, apesar da inteligência que o ser humano possui, as relações entre pessoas são tão conflituosas? Não seria de se esperar que, entre seres dotados da capacidade de entendimento, predominasse a paz? Por estranho que pareça, a causa de tanta discórdia, a meu ver, é o que deveria ser a base da boa convivência: a inteligência, que faz o ser humano pensar. A desordem nas relações humanas ocorre quando se pensa de forma equivocada ou quando se deixa de pensar. É óbvio que não é o pensamento em si que conduz aos conflitos, mas a ação dele decorrente. Se a idéia permanece na esfera íntima, sem levar à ação, não há alteração do estado de paz; é o caso de uma pessoa que tem antipatia por outra, mas mesmo assim a trata com educação e respeito. Cada ser humano tem características próprias. Um indivíduo difere do outro no aspecto físico e nas opiniões, nas crenças, nos sentimentos. A maior prevenção contra atos insensatos é não alimentar os maus sentimentos, é deixá-los morrer de inanição. Para uma boa relação com os outros, deve-se primeiro resolver os conflitos internos, ter controle sobre si. O indivíduo deve ser senhor dos seus sentimentos, das suas opiniões, e não escravo deles. Precisa saber dominá-los. Às vezes alguém muda de opinião sobre determinado tema e é criticado por isso. Ora, isso na verdade é nobre. Mostra que a pessoa não se deixa dominar pela opinião, que consegue dispor dela se surgir outra que convença do contrário. Um conflito bobo é o de motoristas contra pedestres. Para uma boa convivência, bastaria os motoristas manterem os veículos nas ruas e os pedestres usarem as calçadas e as faixas de travessia. O que se vê, entretanto, não é isso. Em vários locais há carros em cima das calçadas, obrigando o pedestre a andar no leito carroçável. Além disso, muitos motoristas são mal-educados, não respeitam as normas de tráfego e põem em risco a integridade alheia. Dizem que a pessoa muda quando se põe ao volante de um carro. Na verdade, ela não muda: revela-se. Quem é educado age como tal em qualquer situação. Nos cruzamentos com sinal de parada obrigatória e nas faixas de travessia, a maioria dos motoristas deixa de dar preferência de passagem aos pedestres. Mas, por outro lado, há os pedestres que invadem as pistas em locais de tráfego exclusivo de veículos, colocando em risco a própria vida e os motoristas em situação difícil. No âmbito profissional, há superiores hierárquicos que tratam mal os subordinados, valem-se do cargo para ofender e até expor a situações vexatórias as pessoas sob seu comando. Desconhecem que chefia não significa tirania. O chefe deve ser acima de tudo orientador. O subordinado, por sua vez, não pode reclamar do chefe exigente e firme. Muitas vezes é exatamente disso que um funcionário com potencial precisa para crescer. Quantos profissionais de sucesso não dão graças a Deus por terem tido chefes exigentes? O mesmo se pode dizer da relação professor-aluno. É comum se deixar dominar pela raiva, e aí se faz ou se fala o que não deve. Sobre tal sentimento, não há melhor lição do que a de Riobaldo: "...a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve de tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a idéia e o sentir da gente: o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato é" (Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa). No meio forense e na mídia, com freqüência pessoas lançam ofensas injustificadas a quem defende opinião contrária. O móvel disso sem dúvida é a raiva e a intenção é contaminar o outro com o mesmo sentimento. O ultrajado, porém, deve ignorar as ofensas e manter o espírito tranqüilo. Acho desumano criticar alguém por um erro ou um insucesso quando o próprio fato já deixa a pessoa arrasada, como o jogador que perde um pênalti, o filho que não passa no vestibular mesmo tendo estudado com afinco. Numa situação assim a pessoa precisa é de uma palavra de estímulo. O complexo de superioridade também é uma coisa execrável. Certas pessoas com alto nível de escolaridade acham-se cultas e pensam que estão acima das demais e que as podem desdenhar. A pessoa realmente culta, entretanto, cumpre as regras básicas de educação e respeito no trato com os outros. Em suma, todos temos defeitos e estamos sujeitos a falhas. Mas, quanto a certos erros, é aconselhável ser prudente e tentar vê-los, de preferência antes, não depois de cometê-los. PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça

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