Nada de trava e vidros elétricos, bancos de couro, quinta marcha e muito menos direção hidráulica. Cerca de 31 mil dos 127 mil veículos registrados na Ciretran (Circunscrição Regional de Trânsito) de Franca têm mais de 20 anos de fabricação e não possuem estes acessórios. Devido ao desleixo ou falta de condições financeiras dos proprietários, muitos se transformaram em verdadeiras “latas velhas” ambulantes. Basta dar uma olhada atenta pela ruas da cidade - principalmente em bairros mais periféricos - para ver milhares de “Corcéis”, “Belinas”, “Fiats 147” em situação pré-desmanche.
Proprietário de um Passat 1984, o representante comercial Fransérgio Barbosa Pinto não vende seu “poisé” por nada. “Ganhei o carro do meu pai há 16 anos, já bati, capotei e nunca o mandei para a oficina”. Devido ao avançado estado de decomposição, o carro foi apelidado de “Demolition” por seus amigos.
Há quatro anos, o veículo foi furtado e encontrado logo depois. “Meus pais foram a um velório e, quando estavam indo embora, viram que ele havia desaparecido. Minutos depois, a Polícia encontrou o carro. Acho que os ladrões, quando viram o estado dele, se arrependeram e o abandonaram”.
Logicamente, Fransérgio nunca sofreu assédio de nenhuma “Maria Gasolina”. “Tenho namorada e ela até já se acostumou com os defeitos do meu carro e ajuda a consertar quando dá algum problema”.
Apesar de tantos defeitos, o representante comercial não tem planos de se desfazer do automóvel. “Este carro pode não ter valor comercial, mas afetivamente ele vale muito para mim. Estou comprando outro mais novo, mas não vou vender meu Passat”. Se fosse vender o veículo, Fransérgio não conseguiria mais do que R$ 1 mil.
A cabeleireira Magda Silva Borges também adora seu carro. Ela possui um Fusca fabricado em 1969, que precisa passar urgentemente por reformas. Ela admite que nunca mandou o carro para a funilaria. “A única coisa que troquei foi o escapamento, mas nunca descuidei dos itens de segurança como pneus, freios e suspensão”.
Como seu marido comprou um carro novo, ela vai ter que vender o Fusca. “A garagem da minha casa só tem uma vaga e, mesmo contra a minha vontade, meu Fusca está à venda”. Magda sofre com as constantes brincadeiras de seu marido a respeito da sua relíquia automobilística. “Ele sempre coloca defeito, fala que meu carro é velho. E eu me ofendo, porque criei um apego ao veículo”.
Uma das opções para quem procura um veículo mais em conta é o feirão que acontece aos sábados e domingos no estacionamento defronte ao parque ‘Fernando Costa’, onde pode-se encontrar dezenas de carros com preços entre R$ 500 e R$ 2 mil. Além disso, quem adquire um automóvel com mais de 20 anos de fabricação é isento do pagamento anual do IPVA (Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores).
PÁTIO LOTADO
O Capitão Alexandre Wellington, da Polícia Militar, disse que os comandos realizados semanalmente pela PM estão tirando muitos desses carros das ruas de Franca. “O pátio do Dinfra está repleto de veículos que não reúnem condições de circular”. A conta para quem é flagrado dirigindo um automóvel em más condições fica salgada. Circular com veículo em mau estado de conservação é infração grave, rende cinco pontos na carteira do motorista e multa de R$ 210. Caso a documentação esteja irregular, a punição é dobrada. Aos valores da multa, ainda é preciso somar os custos de remoção do veículo pelo guincho e as diárias no pátio municipal.
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