Maomé faleceu sem filho varão e sem estabelecer nenhuma regra acerca de sua sucessão. Dessa forma, desencadeou-se uma crise política a qual fez com que o encarregado de Maomé de dirigir a oração, Abu Bakr, fosse eleito o primeiro califa, deixando para os herdeiros regras que regulamentariam a sucessão. Os quatro primeiros califas foram os responsáveis pela expansão do Islã em todo o mundo árabe. Os povos conquistados pelo império muçulmano aprenderam o árabe e se converteram ao Islã, e, dentre eles, muitos cristãos aderiram à nova fé.
O califado conheceu seu apogeu entre 697 a 707, quando invadiram e conquistaram a Península Ibérica e a França. Nessa época, o Islã estendia seu domínio da China até ao Atlântico e o povo árabe, praticamente desconhecido desde a Antigüidade, impôs sua cultura, seu idioma e sua fé a uma população bastante significativa. Curiosamente, nas províncias imperiais, os judeus e os cristãos eram considerados cidadãos de categoria social inferior em relação aos muçulmanos, mas reconhecidos como crentes e chamados de `Povos do Livro`, numa noção que compreende todos os povos que detém uma Escritura Sagrada.
O califado conheceu seu esplendor por volta do ano 750, o que não impediu lutas internas, dissidências, guerras intestinas e o seu desaparecimento em meados do século XIII.
Surgem, atualmente, inúmeras indagações acerca de um cenário imaginado para 2020, onde, de acordo com pesquisadores e estrategistas do mundo todo, pode ocorrer no panorama mundial, `Um Novo Califado`. Eles advertem de que um califado não careceria de ser plenamente bem sucedido para apresentar um grande desafio à ordem internacional. O debate ideológico e o processo de transformação cultural caracterizado pela imigração irão se intensificar com o aumento das identidades religiosas.
Dentre muitas lições aprendidas nesse estudo a lição de que a proclamação de um califado não diminuiria a possibilidade de terrorismo, ao contrário, poderia fomentar até a criação de uma nova geração de terroristas preparados para enfrentar a todos quantos fossem contrários ao califado. Importante considerar que na Gênese do Fundamentalismo Islâmico, constata-se a presença da associação egípcia `Fraternidade Muçulmana` ou `Irmãos Muçulmanos, fundada em 1928, por um professor chamado Hassan al-Banna e em uma de suas obras, o professor convoca a todos os muçulmanos a expandir o Islã por todos os recantos da terra, até que cessem toda a opressão e todas as `insurgências` ocidentais, e que a religião de Alá deveria prevalecer sobre todas as outras. Em um dos trechos mais categóricos de sua obra-base, ele declara:` O Islã é uma declaração geral pela libertação do homem no mundo da dominação por parte de seus semelhantes; a recusa completa do poder de toda criatura, sob todas as formas; a recusa de toda situação de dominação por organizações e situações sobre seres humanos, sob qualquer forma que seja. Quando o poder está em mãos de seres humanos, eles personificam o Criador e, em conseqüência, seus semelhantes os aceitam. Agora isto é desconhecer e expropriar o poder de Alá, devendo ser expulsos esses usurpadores. Isto significa a negação do reinado dos seres humanos, para substituí-lo por um reinado divino sobre a Terra`, reflexões, aliás, muito semelhantes ao gramscismo/marxismo.
Nessa Fraternidade, sunitas e xiitas, apesar de suas divergências histórico-culturais, buscariam sempre manter a unidade de ação. E é exatamente isso que pretende, atualmente, a `Al Qaeda` quando um de seus líderes, Ayman Al Zawahri fez um pronunciamento em dezembro passado, cujo vídeo foi veiculado pela internet, onde convocava todos os militantes iraquianos para que se unam e estabeleçam um `califado islâmico` no país, tendo como enfoque principal a expulsão dos soldados americanos do território iraquiano.
É uma possibilidade remota, mas que não deixa de incomodar teóricos e estrategistas, uma vez que o Islã é o movimento que mais cresce no planeta e as mentes mais brilhantes do fundamentalismo islâmico, foram `formatadas` em Oxford e na Sorbonne. Sendo assim, não custa nada observar os acontecimentos e estar atentos às novidades relativas ao tema.
NADIR A. CABRAL BERNARDINO é advogada, formada pela FDF, Pós-Graduada em Direito Ambiental e Política e Estratégia
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