O local possui 13 quartos. Divididos por sexo, os cômodos abrigam homens e mulheres em camas de solteiro. Os dormitórios ficam num corredor, lado a lado. Os banheiros são comunitários. No feminino, são dois chuveiros, dois vasos sanitários e duas pias. O masculino, maior para atender a demanda, tem quatro chuveiros, quatro vasos sanitários e quatro pias. O refeitório é o espaço para as quatro refeições diárias e também assistir televisão ou participar de reuniões e palestras.
Longe de ser um lar ideal, o Abrigo Provisório "Antônio de Carvalho" tem sido a única alternativa para evitar que pessoas que chegam a Franca em busca de uma vida melhor ou estejam com dificuldades durmam nas ruas, passem fome e outras necessidades. O "hotel municipal" é a luz no fim do túnel para elas.
A entidade é requisitada. São prestados cerca de 3,5 mil atendimentos ao ano. Só neste último mês, foram recebidos 324 usuários. São moradores de ruas, migrantes, mulheres vitimizadas e adolescentes sob medida de proteção. A procura aumentou depois do fechamento do Albergue Noturno em novembro de 2006. Na ocasião, a Fundação Judas Iscariotes suspendeu as refeições, banho e pouso aos carentes por problemas estruturais no prédio.
O pedreiro Neilton da Cruz, 39, é um dos "nômades" que está no local. Aos 18 anos, mudou-se para São Paulo em busca de emprego. Durante os últimos anos, passou por São Gotardo e Campos Altos, ambas cidades mineiras. Pela primeira vez, veio tentar a sorte em Franca. Vindo de Uberaba (MG), chegou na cidade no dia 5 de janeiro. No dia 6 já estava trabalhando na construção civil. "Um amigo meu me falou da vaga. Vim tentar e consegui".
Ele ficou instalado no Abrigo, passou por uma pensão e, com o contrato vencido, retornou para a entidade. Ele se sente bem acomodado, principalmente ao relembrar as dificuldades que já passou nas andanças pelos Estados. "Em lugares que não têm abrigo, tive de dormir na rodoviária, passando frio e fome. Não tenho do que reclamar de Franca. Aqui me tratam muito bem, tive onde dormir direito e comida."
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Como muitos usuários, Neilton anda sozinho pelas cidades, mas famílias também precisam ser acolhidas. Como a jovem Clarisse (nome fictício já que é menor), de 17 anos, que chegou à instituição com a filha Maria (também nome fictício), 1, na tarde de segunda-feira. Ela morava com o avô. Sua mãe estava responsável pela criança, mas Clarisse disse que ela, seu pai e irmã estão desempregados e não poderiam continuar cuidando da neta. "Ela me `devolveu` o bebê. Ao chegar na casa do meu avô, a mulher dele não nos aceitou. O Conselho Tutelar me trouxe para o Abrigo para não ter que ficarmos na rua." Ela ficará lá até o juiz determinar para onde irá com a filha.
PROVIDÊNCIAS
Único local para acolher pessoas desabrigadas, o abrigo da cidade assume mais funções. Além de pouso e refeições, providencia retirada de documentos, corte de cabelo, transporte urbano, passagens intermunicipais, roupas e encaminha para casas de recuperação de dependentes químicos, para agências de emprego e cursos de geração de renda.
Pelo regulamento, a pessoa tem direito a ficar três dias no local. Mas, nestas horas, o nome "provisório" costuma ficar apenas no papel. Dos 33 atendidos ontem, 12 eram moradores fixos. "Não têm para onde ir, as famílias não os aceitam, principalmente porque a maioria tem problemas com alcoolismo. Não podemos despejá-los na rua, desampará-los", disse o diretor do abrigo, Adair Carvalho.
Luiz Carlos Silva, 40, lavrador, mora no abrigo há três anos. Nascido num sítio de Restinga, decidiu tentar a vida em Franca depois que os pais morreram. Sem conseguir serviço (o último serviço data 1995), foi obrigado a morar na rua até "se instalar" num cômodo no Cemitério da Saudade.
Ele não sabe informar quanto tempo dormiu na rua, ficou sem tomar banho e pedindo comida de porta em porta. Há três anos, a Guarda Civil o levou para o abrigo. Hoje não passa mais necessidades e até fez um curso de jardinagem. "Aqui é melhor.
Tenho lugar bom para dormir, tomar banho e alimentação. Ficarei aqui até quando deixarem." Enquanto reside na entidade, sonha em conseguir emprego na roça, juntar dinheiro e comprar um pedaço de terra. "Quero ter meu cantinho."
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