A solidão, a meu ver, é um dos estados da alma que mais angustiam. Penso que a infelicidade beira o ápice quando a pessoa verdadeiramente se sente solitária. Imagine-se só, sem ninguém a lhe esperar nem para chegar, um telefone que não vai tocar. O protagonista do filme "Náufrago", ao ver-se isolado na ilha, para reduzir a soledade, pintou traços de um rosto humano numa bola de basquete e passou a conversar com ela como se fosse uma pessoa com quem pudesse compartilhar os sentimentos. A solidão é mais comum do que parece, mesmo neste mundo de avançada tecnologia e fácil comunicação à distância. Muitos casais mal se falam; vivem fisicamente perto um do outro, mas anos-luz distantes em termos de afeto, respeito. São carentes, solitários. Isso explica o alto índice de adultérios e de uniões desfeitas, além dos casamentos mantidos por pura conveniência social.
Muitos casais idosos, depois que os filhos seguem o próprio rumo, acabam relegados ao abandono, ao esquecimento, e antes da viuvez ainda conseguem vencer a solidão, amparando-se mutuamente, mas quando um dos cônjuges se vai o outro sucumbe ao vazio. Não é, porém, apenas o isolamento que provoca solidão.
Pessoas com família, trabalho, compromissos, vida social ativa também estão sujeitas a esse mal. Vencem grandes desafios, singram mares bravios, resolvem problemas mil, parecem viver num mundo mágico, mas no fundo sentem um certo vazio, uma tristeza, um fastio, algo que pode levar a um fim trágico, um desvario.
Pode-se sentir solidão mesmo com muitas pessoas do lado, numa multidão, desde que "aquela pessoa" esteja ausente. Como canta Roberto Carlos: `É tão difícil olhar o mundo e ver / o que ainda existe / pois sem você meu mundo é diferente / minha alegria é triste`.
Solidão é incompletude, é sentir falta, é sofrer amiúde. É o pé sem o chão, navio sem mar, peito sem coração. Solidão é jardim sem flor, alma vazia, verão sem calor. É remo sem remador, Adão sem Eva, João sem Maria, carro sem motor. Solidão é desnorteio, é desintegração, são extremos sem meio. É criança sem alegria, desunião, trem sem freio. Solidão é vazio em tudo, é rio sem vazão, telefone mudo, espiga sem grão, continente sem conteúdo.
É possível vencer a solidão. Os casais que não se falam precisam buscar o diálogo, amadurecer a relação. A mulher gosta de ser lembrada, cativada, cortejada, e o marido deve reservar tempo para ela, conciliar os compromissos do trabalho com os deveres do lar. Muitos casamentos terminam simplesmente porque a atenção e o carinho dos tempos de namoro diminuem muito após o matrimônio.
Aqueles que se sentem solitários em razão de uma paixão não-correspondida também podem libertar-se. Basta, antes de tudo, amarem a si próprios e à vida. Não se deve jamais condicionar a própria satisfação, a alegria de viver a atos ou sentimentos alheios. É furada aquela coisa de `sem você minha vida não tem sentido`. A pessoa, antes de tudo, tem de saber conviver em paz consigo própria, amar a vida, ter amor-próprio, auto-estima, trazer dentro de si mesma o sentido, o sustentáculo da existência em vez de querer encontrá-lo em outra pessoa. Quem vive bem consigo mesmo e com a vida não é dominado pela solidão, mesmo sozinho.
Para certas pessoas, entretanto, é mais difícil escapar, como os idosos que moram sozinhos, os enfermos. Mas mesmo assim podem diminuir os efeitos da solidão. Como dizem, em vez de lamentar o que a vida nos tira, devemos valorizar o que ela nos deixa. Vejo a vida como uma seqüência de perdas. Acho que é preciso encarar como naturais certos acontecimentos e, sobretudo, saber ver o lado bom das coisas. Quem consegue chegar à velhice deve dar graças a Deus. O bem maior que o homem possui é a vida, e o que ele pode dar em troca é o amor.
Se eu fosse bem velhinho, acho que diria: "percorri todo o caminho, ficaram para trás meu vigor, minha energia, mas ainda tenho carinho e alegria; já se foi a juventude e por isso fico aqui, mais na quietude; trago dentro de mim um amor sem fim; amo a vida e fico observando tudo assim- assim; gosto do canto dos pássaros e me encanto com as traquinagens das crianças; por vezes bate a nostalgia e então, contemplando a imensidão do céu, mergulho em lembranças. O amor é tudo, espanta a solidão e faz da vida continente com conteúdo".
PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça
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