Ficar longe de casa, deixar mulher e filhos por períodos longos, de até quatro anos, lavar e passar a própria roupa, dormir em beliches instaladas em apertados alojamentos. Essa é a rotina de centenas de funcionários da construção civil que vêm dos mais distantes pontos do País, a maioria do Nordeste, para trabalhar em Franca. Chegam a viajar mais de quatro mil quilômetros para ganhar salários entre R$ 640 e R$ 1,7 mil e dar uma vida melhor à família.
São pelo menos três obras na cidade que, hoje, mobilizam este verdadeiro exército de trabalhadores: dois conjuntos da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano), nos Jardins Santa Efigênia e Milena, e a construção do campus da Unesp (Universidade Estadual Paulista).
Pedreiro há 26 anos, José Fernando Santos, 46, é casado, tem dois filhos, dois netos e mora em Caicó, no Rio Grande do Norte, a 4,3 mil quilômetros de Franca. Há seis meses, não vê a família. Seu contrato prevê pagamento por metro quadrado, o que lhe garante até R$ 1,7 mil mensais. Em sua cidade natal, era funcionário da prefeitura e faturava um salário mínimo. “Mando R$ 1,2 mil para Rosângela (mulher) e guardo o resto no banco. Se estivesse lá, com R$ 350, tudo ia ser mais difícil. A saudade aperta todo dia, mas não dá para parar com as viagens agora”, disse ele, que chegou a ficar um ano e meio longe de casa, trabalhando.
O ajudante Ocimar Rodrigues Silva, 33, natural de Barro D’Ouro, no Piauí, a quase 3,5 mil quilômetros de Franca, compartilha dos mesmos sentimentos de José Fernando. Pai de Walisson (9), Wesley (7) e Weslaine (6), quer dar melhores condições de vida aos filhos e à mulher, Claudenir. Mas o preço pago pelo sonho, segundo ele próprio, é alto. “Fico seis meses, às vezes um ano, fora de casa. Não estou vendo meus meninos crescerem. Mas sei que me compreendem. Sabem que faço isso também por eles”, disse.
Segundo os operários, nos dias úteis a hora “passa mais rápido”, mas nos fins de semana a saudade de casa aumenta e, às vezes, dá vontade até de desistir. “É difícil. Ainda mais quando eu ligo em casa e falo com minhas netinhas. Já pensei até em parar, mas não tem jeito”, disse José Fernando.
O encarregado de obras Roberto Carlos Maia tem de administrar, além da construção, a situação de fragilidade a que os homens, com o passar dos dias, semanas e meses, inevitavelmente, ficam expostos. Segundo ele, o diálogo se torna necessário. “Com o tempo, eles se acostumam, mas ainda assim ficam tristes de vez em quando. A gente chega e conversa para tentar ajudar e eles entendem. São todos bons profissionais”, disse Roberto, que mora mais perto, em Colina, a 170 quilômetros de Franca. “Eu mesmo, às vezes, passo por isso”.
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