Março de 2006: adolescente de 16 anos é acusado de abusar da prima de apenas 2. Maio: pastor, 38, abusa de menina de 10 anos. Julho: pai é preso após beijar filha de 6 anos na boca. Agosto: aposentado é acusado de violentar garoto de 12 anos. Notícias veiculadas pelo jornal no ano passado retratam um pouco das estatísticas de assédio e abuso sexual em Franca. Oficialmente, pelo balanço apresentado pelo Conselho Tutelar, foram 33 casos.
A média registrada de três ocorrências por mês, porém, não condiz com a realidade. “O número de casos é muito maior.
Sabemos que várias ocorrências não são denunciadas. As vítimas costumam camuflar o problema porque geralmente acontece dentro da família e elas não querem ‘expor’ a situação”, ressalta o conselheiro tutelar Lucas Verzola.
As agressões às vítimas incluem as “cantadas”, convite para dormir junto, passada de mão, carícias nos seios, pernas e partes íntimas e vão até o estupro. O palco escolhido para as ações, em 99% delas, é a própria residência dos menores. E pior: os autores são conhecidos que, na maioria das vezes, estavam incumbidos de cuidar deles. Pais, padrastos, tios, primos, irmãos e até avôs assediam e abusam de menores. “Isso mostra como é difícil prevenir esse tipo de crime. Os autores são ‘pessoas de confiança’. No ano passado, atendi a mãe de uma criança abusada pelo próprio avô que ficou muito abalada e nos questionava ‘como poderia desconfiar do meu próprio pai?’”, disse Ely Vitoriano, conselheira tutelar.
Os crimes são praticados por pessoas de todas as classes sociais, em bairros diversos, contra meninas e meninos, sejam eles jovens, crianças ou mesmo bebês. Uma das histórias que mais chocaram se tornou pública apenas na semana retrasada, mas teria acontecido em julho de 2006. O padre Juscelino de Oliveira, 38, é acusado de ter estuprado a prima (com 10 anos na época) durante férias em Franca, na casa dela, no Jardim Aeroporto. Ele atua em São Paulo.
A garota não contou para os pais. Eles ficaram sabendo e puderam denunciar o crime somente em outubro depois da filha ter narrado para uma amiguinha a transa com Juscelino e a mãe da colega ter levado o fato ao conhecimento da família. A DDM (Delegacia de Defesa da Mulher) investiga o caso. O padre foi indiciado por estupro e responderá também por atentado violento ao pudor. Juscelino continuará suspenso da Paróquia de Santa Edwiges, de São Paulo, até as investigações serem concluídas.
DESCOBERTA
Os casos dos quais o Conselho Tutelar toma conhecimento são denunciados por anônimos, pelos próprios pais que percebem sangramentos ou marcas no corpo dos filhos, especialmente na hora do banho ou de trocá-los, e por médicos. Se suspeitam de abuso, os profissionais fazem exame e, se confirmarem a agressão, acionam os conselheiros tutelares. “Fazemos boletim de ocorrência, solicitamos outro exame e tomamos providências. A primeira atitude é abrigar a vítima, afastando-a do suposto agressor. Depois a delegacia investiga a ocorrência para punir o autor”, disse o conselheiro Lucas Verzola.
A orientação é denunciar. Mesmo se for apenas suspeita, a pessoa tem de comunicar às autoridades. “Se abusado ou assediado, o menor precisa passar por acompanhamento psicológico para evitar traumas, evitar que cresça revoltado e até mesmo que cometa erros quando for adulto. É comum agressores terem sido abusados. Somente com a denúncia, os criminosos poderão ser punidos”, disse Lucas Verzola. A pena para estupro e atentado varia de seis anos a dez anos para cada crime.
Denúncias devem ser feitas ao Conselho Tutelar pelo telefone 3721-4894 ou 9965-1201 ou na DDM (Delegacia de Defesa da Mulher), pelo 3722-9000.
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