<p>O fotógrafo Tiago Brandão, 24, ganhou notoriedade nacional na última semana após fotografar o salvamento do menino Gabriel, 7, em um piscinão localizado a dois quilômetros do Centro de Franca. Na seqüência, ele registra as expressões de desespero da mãe, Márcia Jerônima, 36, e a história do resgate, do qual participaram ainda um popular e o motorista do Comércio, Wilson Batista. Tiago foi assunto de comentários no site do Comércio, em praticamente todos os jornais e emissoras de TV , em comunidades da internet e nas ruas de todo o Brasil. Os jornais de circulação nacional, como Folha e Estadão reproduziram integralmente ou em partes a seqüência de fotos feita por Tiago. As maiores emissoras de TV também levaram ao ar programas sobre seu trabalho. Hoje, inclusive, o Fantástico, da rede Globo, traz matéria a respeito. Agências de notícias internacionais solicitaram ao Comércio autorização para reproduzir as fotos para jornais de diferentes partes do mundo. Além dos elogios, inerentes à qualidade do trabalho, ele foi muito criticado por não ter, segundo alguns, se disposto a largar a câmera e salvar, ele mesmo, o garoto.</p>
<p><br />Tiago, que não sabe nadar, acredita ter feito a coisa certa. “Com minha câmera, salvei a vida não só dele, mas de muitas outras crianças que poderiam morrer naquele lugar”, diz, emocionado.</p>
<p><br />Casado há dois anos com Pâmela, é pai de Arthur, 2, e trabalha no Comércio há dez anos. Começou como distribuidor de encarte e entregador de jornal, foi ainda vendedor de assinatura e auxiliar de fotomecânica antes de fotografar. </p>
<p>Em entrevistra exclusiva, Tiago falou sobre o registro da cena e sobre a reação provocada pelas imagens. Ele admite que passou por momentos difíceis. “Fui ofendido por pessoas que nem conheço. Minha família toda ficou abalada, mas tentei manter o equilíbrio”, diz. Confira os principais trechos do bate-papo. </p>
<p><strong>Comércio da Franca - Conte um pouco sobre quem é o fotógrafo que ficou conhecido em todo o País através das fotos do salvamento de uma criança pela mãe. <br />Tiago Brandão</strong> - Sou um cara normal. Nasci e cresci em Franca, comecei a trabalhar aos 14 anos, no Comércio da Franca, como distribuidor e encartador e permaneço até hoje na mesma empresa. Sou casado, pai de um filho, o Arthur, e amo minha família. Fotografar é minha vida, amo o que faço, e procuro sempre fazer o melhor. Costumo me emocionar com facilidade. Mas o mais importante é que não sou o monstro que algumas pessoas pintam. </p>
<p><strong>Comércio - Sobre o trabalho, qual era sua pauta para aquele dia e como você encontrou a Jerônima?<br />Tiago</strong> - Eu iria tirar fotos aéreas de Franca e região, mas, devido ao tempo ruim, ele foi cancelada por motivos de segurança. Então, eu e o Wilson fomos ao Sesi fotografar algumas pessoas pegando água. No caminho,vimos a dona Jerônima com umas seis garrafas de refrigerante. Enquanto isso, os filhos dela brincavam de pegar peixes no piscinão. O irmão do Gabriel, o Daniel, chegou a me mostrar as tilápias que havia pego. Depois, conversei com a Jerônima, me identifiquei e ela topou fazer as fotos. Tinha tirado umas três, quatro fotos. Nisso o Gabriel caiu dentro do poço. </p>
<p><strong>Comércio - E como foi que ele caiu?<br />Tiago</strong> - Ele estava na beirada brincando com o irmão. Tentavam pegar peixes com uma garrafa pet. Como ele caiu eu não vi, só escutei o barulho. Não deu tempo de ver muito, eu estava posicionado para tirar as fotos em outra direção. </p>
<p><strong>Comércio - Quando o menino caiu na água você estava com a câmera focada na mãe. Como foi essa foto?<br />Tiago</strong> - Assim que percebeu, ela correu, ameaçou pular e gritou por socorro. No momento em que ela gritou, o Wilson estava no carro pegando uns formulários. Ele largou tudo e foi correndo para a beira do poço. Quando o Wilson chegou, ela já estava na água. Nesse momento, chegou mais um rapaz, que também ajudou no salvamento. Esse foi o roteiro da foto. </p>
<p><strong>Comércio - E isso durou quanto tempo?<br />Tiago</strong> - Demorou pouco tempo. Entre o garoto cair e ser resgatado, menos de um minuto. Foi tudo muito rápido. O tempo em que fiz as fotos não passa de 40 segundos. </p>
<p><strong>Comércio - Qual foi sua primeira reação no momento?<br />Tiago</strong> - Fotografar. Foi uma situação de adrenalina e a primeira reação foi baseada em um instinto jornalístico. Milésimos de segundo antes, eu avaliei a situação e concluí que ela não corria riscos e que eu ajudaria mais com as fotos. </p>
<p><strong>Comércio - Existiu um momento em que você pensou em parar e ajudar?<br />Tiago</strong> - No primeiro momento pensei em fotografar e ajudar. Mas quando vi a ajuda chegando, fiquei mais tranqüilo e pensei em fazer fotografias. Caso não tivesse ninguém para ajudar, eu nem pensaria em fotografar. Eu nunca deixaria aquela criança morrer. </p>
<p><strong>Comércio - Depois do caso, você tinha consciência do material que conseguiu?<br />Tiago</strong> - Tinha consciência de que eu tinha um bom material, algo exclusivo e que tocaria os leitores. Mas não imaginava o tamanho da repercussão.<br /></p>
<p><strong>Comércio - Você ficou surpreendido com o retorno?<br />Tiago</strong> - Sem dúvida. As fotografias tiveram grande repercussão nacional e internacional e, mais importante, mudaram a vida de muitas pessoas, que poderiam cair naquele poço e não contarem com ajuda. </p>
<p><strong>Comércio - E o que achou das criticas?<br />Tiago</strong> - O que mais me preocupou foram os ataques violentos, aos quais não estava acostumado. Mas estou com minha consciência tranqüila, já falei com a dona Jerônima. E ela até me pediu desculpas por um depoimento que deu na Rede TV! e para um jornal de São Paulo. Acredito que ela foi induzida a responder aquilo. </p>
<p><strong>Comércio - Qual foi o depoimento dela?<br />Tiago</strong> - O repórter fazia as perguntas de forma muito estranha. Ele perguntava ‘Você ficou muito brava com ele, não ficou?’. Ela é uma pessoa muito humilde e foi concordando com o que o repórter dizia. Quando ela me viu, chorou e pediu desculpas, disse que não era nada daquilo. Um outro jornal citou em uma linha fina ‘Se eu tivesse uma pedra eu acertava nele’. Essas coisas me deixam chateado. </p>
<p><strong>Comércio - Você recebeu muitos ataques pessoais?<br />Tiago</strong> - Sim. Chegaram a expor uma foto do meu filho em um site de relacionamentos dizendo: “que tal jogar esse menino no poço para o pai dele fotografar?”.<br />Foi uma tremenda covardia. No meu fotolog, também recebi críticas de fotógrafos, mas não me chateei por saber que colegas de profissão já passaram pela mesma situação e me ofereceram apoio. Só espero em uma outra oportunidade não ser tachado de covarde, desumano e sangue de barata sem que as pessoas me conheçam e nem perguntem as razões da minha reação. </p>
<p><strong>Comércio - Você ficou abalado?<br />Tiago</strong> - Não só eu como toda a minha família. Minha mãe, minha esposa e meus avós, que acompanham meu trabalho, todos ficaram abalados. Essa reação me deixou muito chateado. Mas não deixei me abalar moralmente. Eu nunca deixaria aquela criança morrer. </p>
<p><strong>Comércio - Qual sua maior motivação na fotografia?<br />Tiago</strong> - A transmissão dos sentimentos paralisados em uma imagem. E mais do que isso, como imprensa, ajudar a população com informação e denunciar coisas erradas. Com isso posso salvar outros Gabriéis, que não vão estar com a mãe para socorrê-los em um momento de dificuldade. </p>
<p><strong>Comércio - As fotos foram divulgadas em todo o mundo. Como fica sua carreira agora?<br />Tiago</strong> - Foi um trabalho importante, mas espero que venham outros pela frente. Eu gosto muito do que eu faço. Tenho muito a agradecer a toda a equipe do jornal, pois devo muito a ela. Quanto a trabalhar em outro lugar, agora não é o momento. Estou numa fase muito boa no Comércio da Franca, onde venho adquirindo muita experiência e conhecimento. Quero continuar aqui. </p>
<p><strong>Comércio - Na sua opinião, qual o grande legado das suas fotos? <br />Tiago</strong> - Sem dúvida, conseguir com que as autoridades responsáveis arrumassem o problema do poço, isolando a água. É uma prova de que a imprensa pode ajudar. Não salvei diretamernte o Gabriel, mas salvei a vida de outros garotos que poderiam morrer lá sem ajuda. E é por isso que me sinto, hoje, recompensado.</p>
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