Desde que nasci, em cinqüenta e nove, venho tentando compreender um pouco o que move este mundo louco, como ele se locomove.
Nesse movimento há coisas que, confesso, ultrapassam minha capacidade de entendimento. Entra ano, sai ano e o mais difícil pra mim é entender o ser humano. Milhões de pessoas passam fome na Terra enquanto se gastam quantias astronômicas com programas espaciais, com guerras. Nada contra a exploração do espaço, mas antes é preciso cuidar da gente, do meio ambiente, do nosso planeta. Os E.U.A., com toda sua riqueza, têm trinta por cento da população vivendo na miséria, mas gasta fortunas na guerra e nos projetos espaciais. O Brasil está transformando-se num enorme canavial. Terra fértil é utilizada para plantar cana. Até regiões tradicionais em criação de gado estão dando lugar à produção de álcool. Produz-se alimento para os carros, para as máquinas, enquanto muitas pessoas não têm o que comer. Eu não consigo entender.
As relações humanas estão cada vez mais deterioradas. Numa audiência do Juizado Criminal, num caso de acidente de trânsito, indagou-se ao autor do fato se ele já havia ressarcido o prejuízo da vítima. Sabem o que ele respondeu? `Não, ela não me procurou`. Sendo o causador do acidente, devia partir dele a iniciativa de procurar a vítima e reparar os danos, vocês não acham? O ser humano não é perfeito; está sujeito a erros.
Todavia, a nossa falibilidade não deve servir de desculpa para todas as besteiras que a gente faz. Certas atrocidades não têm justificativa. O mínimo que uma pessoa decente pode fazer ao cometer um erro é assumir as conseqüências. O Pelé não foi ao velório da filha Sandra. Disse que não se sente bem em velório.
Que pisada na bola, não? Que eu saiba, exceto os donos de funerárias, ninguém gosta de velório. Quisera, porém, que nesta vida a gente pudesse fazer só o que gosta. As casas hoje têm TV na sala, nos quartos, na cozinha. Os contatos entre pessoas são mais virtuais. Para muita gente parece que não há vida fora da tela da TV ou do computador.
A paixão para muitos virou fanatismo. Eu sinceramente não entendo se a paixão se assenta em si mesma ou no ódio à paixão alheia. O torcedor de futebol, por exemplo, tem amor ao seu time ou ódio aos rivais? Como se explicam as mortes em brigas de torcidas? Como entender guerras movidas por paixões políticas, religiosas?
Nos relacionamentos dos casais não há mais respeito. A mulher é agredida pelo marido. Sobre isso eu gostaria de dizer o seguinte: muitas mulheres agredidas acabam perdoando os maridos, e assim se convencionou dizer que `mulher gosta de apanhar, não tem dignidade`. Não concordo com esse pensamento. Acho que a pessoa que perdoa está num nível superior, tem muito mais dignidade, mais nobreza na alma e por isso deve ser admirada, não criticada. Censurável é o comportamento de quem agride, não de quem perdoa.
Mas, a despeito da banalização da violência, da insensibilidade das pessoas, é preciso convir que há esperança. Ainda há muita gente decente. Gente que, além de cumprir seus deveres pessoais, se dedica a causas nobres, sem nenhum interesse financeiro, como os defensores do meio ambiente, os voluntários de ajuda a necessitados, etc. E ainda há quem os critique! Há quem odeia os ambientalistas, os defensores dos animais. Eu não entendo.
Eu sonho com um mundo melhor. Um mundo sem tantos medos, sem tantos `segredos`, em que os dedos valham mais que os anéis, as palavras pesem mais que os papéis, que crianças, em vez de armas, empunhem pincéis; um mundo sem `igrejas` depenando fiéis em nome de Jesus, sem doentes morrendo na fila de espera do SUS, sem políticos ganhando mais do que fazem jus. Quero ter condições de enfrentar os problemas numa boa, poder perambular por aí de vez em quando à toa, num mundo em que o bem mais precioso seja a pessoa. Poder fazer as caminhadas sem carros obstruindo as calçadas. Um mundo com mais decência, mais amizade, em que a verdade valha mais que a aparência, a liberdade equivalha à independência. Um mundo com mais união, mais integração, em que as pessoas procurem agir corretamente guiadas pela própria consciência, não por medo de punição. Eu sonho. Vocês não?
PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça
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