Até bem pouco tempo em Franca havia quem não considerasse as questões ambientais um problema seu. O mais rápido degelo das calotas polares de todos os tempos, a maior seca na Amazônia da História, calor recorde na Europa, a mais intensa temporada de furacões no Atlântico Norte das últimas décadas. Tudo isso parecia abstrato e desconectado de nossa realidade cotidiana até que um temporal de magnitude igualmente histórica se abateu sobre Franca, inundou casas, destruiu pontes e deixou centenas de milhares de pessoas sem água.
Não se pode esperar que estruturas feitas para suportar uma realidade de 20 ou 40 anos atrás, suporte os humores da nova realidade urbana e ambiental dos dias atuais. É verdade que a maneira irracional como se deu a ocupação do solo em Franca, com a quase inexistência de construções verticais, impermeabilização de áreas nativas que deveriam ser preservadas, a ineficácia das administrações que não construíram piscinões para minimizar o efeito de enxurradas nem trabalharam pelo desassoreamento da ‘nanobacia’ do Espraiado levaram à situação de enchentes constantes em nossa cidade. Mas é também verdade que jogar lixo nas ruas, o que leva ao entupimento das galerias pluviais, e usar utilitários rurais (principalmente caminhonetes a diesel) altamente poluentes por mero exibicionismo (o que contribui para o aquecimento global), torna parte da população cúmplice dos problemas que enfrentamos hoje.
A água bateu, literalmente. Não é mais possível a ninguém dizer que a preocupação com a saúde do planeta Terra seja paranóia de hippies ecologistas.
O que dá para fazer agora é repensar nossas posturas cotidianas e as políticas públicas do futuro próximo. É preciso ainda agir com a racionalidade e solidariedade que esses dias presentes de emergência e privação exigem. Banho mais de uma vez por dia não dá. Há que se aprender a sujar o mínimo de louça possível, usar a água da chuva para lavar roupa e dar descarga.
Nesses dias em que temos bem menos água do que precisamos, como num filme-futurista-brega estilo Mad Max, podemos aprender que, quando temos em abundância esse recurso, o usamos mais do que de fato precisamos. Algo parecido com o que aconteceu com a energia elétrica no apagão dos anos FHC.
Esse tempo de privação que tem transtornado a vida de todos servirá ainda para exercitarmos a solidariedade, seja na redistribuição de água de quem ‘tem’ em abundância (em poços e minas) para quem carece ou no ato de motorista do Comércio que ajuda no resgate de uma criança e de sua mãe que estavam a ponto de se afogarem; e compreendermos, mesmo depois que tudo estiver resolvido, o sofrimento de comunidades que passam por catástrofes naturais e sociais bem piores que as nossas.
Teremos, dessa semana em diante, maior consciência de que tudo está conectado, de que Marshall McLuhan estava certo quando criou o conceito de aldeia global, mas que, para além da homogeneização cultural, se verifica uma globalização dos problemas ambientais, uma vez que nuvens de chuva, calor, poluição e a força das águas correm como bem entenderem e não obedecem fronteiras políticas ou vontades humanas. Estamos todos no mesmo barco.
LEANDRO J. A CRUZ é professor, historiador e repórter do Comércio da Franca
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