Sem pensar, sentir ou raciocinar, Marcela Galante Ferreira, o bebê que nasceu sem cérebro em Patrocínio Paulista, chegou a dois meses de vida neste sábado. Não deve passar dos quatro. A sentença é de um dos maiores nomes da Neurologia Infantil do Brasil, o médico Aron Diament, um dos fundadores da Academia Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil, professor livre-docente de Neurologia Infantil da Faculdade de Medicina da USP e ex-chefe do setor de Neurologia do Hospital das Clínicas em São Paulo.
Há mais de 40 anos, o médico atua tratando de crianças com problemas de desenvolvimento neurológico. “Em toda a minha carreira como neurologista e pesquisador, nunca soube de nenhum caso de bebê anencéfalo que tenha sobrevivido a mais de quatro meses. Nos relatos médicos oficiais, não existe nenhuma criança identificada no mundo com idade superior a isto”.
A morte de Marcela deve ser causada, segundo o especialista, pela falência dos órgãos. “Com o desenvolvimento e o crescimento do nenê, os órgãos passam a exigir do tronco cerebral funções mais complexas. Como ele não consegue responder a todas, acaba falhando e parando de funcionar, o que deve matar a Marcela”.
Para Diament, o bebê é comparável a um vegetal. “Ela não pensa, não tem sentimentos, não é capaz de criar vínculos com as pessoas. Tudo o que faz são apenas reflexos involuntários”.
Isso ocorre porque Marcela Galante não tem o córtex, área do cérebro responsável pelo raciocínio humano, onde se processam todas as informações que nossos sentidos recebem. “Ela até sente os reflexos da dor, da fome, do frio. Mas não da mesma maneira que uma criança normal. Ela reage aos estímulos por causa do tronco cerebral bem desenvolvido, mas não consegue saber o que eles significam. Há o reflexo da dor, mas não o registro dela no cérebro”.
A mesma opinião de Diament é compartilhada pelo professor titular de Ginecologia da Unicamp (Universidade de Campinas) e secretário estadual de Ensino Superior, José Aristodemo Pinotti. “A anencefalia é uma deformação sem tratamento ou cura. Um mal incompatível com a vida. Na medicina, não temos como ser cartesianos, mas, muito dificilmente este bebê passará dos quatro meses de vida”.
Pinotti, que já perdeu as contas de quantos partos realizou ao longo da carreira, diz que a anencefalia não é um mal tão raro quanto se imagina. “Ocorre um em cada mil nascimentos vivos no Brasil”. Índice que, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), coloca o País no quarto lugar do ranking de maior ocorrência do fenômeno no mundo.
Mesmo que sobreviva, Marcela, segundo os médicos, nunca será capaz de pensar, se movimentar. “Passará a vida como alguém que teve a morte cerebral diagnosticada”.
Ambos são favoráveis à liberação do aborto em casos de anencefalia. “A lei não pode impedir uma mãe de encurtar seu sofrimento. Não pode impor à mulher uma gravidez sem futuro, cujo bebê não vingará. Ela deve ter o direito de escolha. A decisão deve ser só dela”, disse Pinotti.
Religiosa, Cacilda Galante Ferreira, a mãe de Marcela, não acredita na sentença médica. Vive os dias ao lado do leito da filha. Não reclama. Está feliz em poder abraçar e acariciar a caçula da família. “Para mim, nada disso tem valor. Sei que a amo e que ela sente a minha presença e esse meu amor. Isso me basta”.
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