“Eu vivo um dia de cada vez”. Assim a mãe de Marcela, Cacilda Galante Ferreira, descreve a forma como encara a sentença dada pelos maiores especialistas em anencefalia do Brasil. Religiosa, a agricultora de 35 anos de idade comemora cada dia passado na Santa Casa de Patrocínio Paulista ao lado de sua filha e coloca nas mãos de Deus o futuro do bebê.
A fé de Cacilda está exposta de muitas formas. Sobre o berço em que Marcela repousa, na imagem impressa de Nossa Senhora colada à parede. Sobre a cômoda no canto do quarto, mais representações da mãe de Deus.
A mãe acredita em um milagre que contrarie todos os prognósticos científicos. “Para Deus, nada é impossível”. Ainda assim, ela se considera preparada para qualquer que seja o destino de sua filha. “Eu vou sofrer, qual a mãe que não sofria, não é? Mas eu estou preparada”.
O convívio de dois meses foi suficiente para estreitar os laços maternais. Ainda que especialistas afirmem que Marcela não interprete qualquer sinal exterior e aja apenas por reflexo, a mãe tem certeza que a anencéfala a reconhece. “Ela fica muito irritada, ela fica mexendo muito e, na hora que eu começo a conversar com ela, ela acalma, fica tranquila e pára, fica quietinha”, diz.
Cacilda não esconde a dor que sente sabendo da incerteza que envolve o destino de Marcela. “Dói muito. Durmo um segundo, acordo, olho ela um pouquinho, depois durmo de novo. É assim.
Não sei como ela vai passar a noite, só Deus é que sabe. Cada noite é uma nova etapa”. A preocupação rotineira não provoca arrependimento na mãe que soube dos problemas do bebê aos quatro meses de gestação e, mesmo assim, decidiu não interromper a gravidez. “Não me arrependo nunca. Deus dá a cruz conforme a gente agüenta”.
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