A rotina do bebê que multiplica os dias


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Terça-feira, 20 de novembro, 13 horas. Marcela de Jesus Galante Ferreira nasce na maternidade da Santa Casa de Patrocínio Paulista. Com 2,5 quilos e 47 centímetros, o bebê tem expectativa de vida incerta. Pode viver horas ou, no máximo, dias. Os dias se revelaram muitos e Marcela já tem o que contar. Em 61 dias, o bebê ganhou peso e cresceu. Hoje está com 2,7 quilos e 49 centímetros. Recentemente, esteve gripada e chegou até a precisar de inalação e antibióticos. Mas, mesmo assim, passa bem. A rotina de Marcela é cheia de “afazeres”. É claro, com a ajuda das enfermeiras e da mamãe Cacilda Galante Ferreira, que passa todos os dias ao lado do leito da filha. Periodicamente, o bebê recebe a aplicação de colírio e a troca do oxigênio do capacete que auxilia a respiração. Uma espécie de caixa de acrílico transparente que concentra o oxigênio bombeado por meio de um cano. Marcela respira sozinha. De três em três horas, chega a vez da alimentação. Cerca de 40 mililitros de leite artificial (NAN) consumidos por meio de uma sonda nasogástrica. Nestas horas, é o momento também de mudar de posição. Ficar deitada cansa. Logo pela manhã, é hora de tomar banho, o único do dia. Como para a maioria dos bebês, um momento não muito agradável. Marcela chora um pouquinho, mas logo se acalma. O choro também vem quando chegam as cólicas. Mas, aí, a mamãe entra em ação. A coloca de pé, com a cabeça apoiada no ombro. O calor do corpo de Cacilda esquenta a barriga da filha. Uma “colicazinha” não será obstáculo para quem vence barreiras muito maiores. Marcela permanece adormecida na maior parte do tempo. Quando acordada, movimenta os braços e as pernas. No colo da mãe, se acomoda perfeitamente. Chega até a ficar sentada. Os primeiros dias de vida da anencéfala foram complicados. A pequena Marcela teve febre, convulsões e paradas respiratórias. Chegou a perder peso. Nasceu com 2,5 quilos e chegou a pesar 2,2 quilos. No entanto, depois de dias difíceis, prestes a completar um mês de vida e com condições estáveis de saúde, quase recebeu alta. Quase. Apesar da mamãe Cacilda chegar a ser treinada para cuidar do bebê sozinha, uma parada cardíaca sofrida na data em que completava 30 dias de vida impediu que ela deixasse o hospital. Reanimado rapidamente pela equipe médica de plantão, apenas com massagens e sem a necessidade de remédios, o coração de Marcela voltou a bater. Mas a esperança da mãe, do pai, o agricultor Dionísio Justino Ferreira, 46, e das duas irmãs de 18 e 14 anos, de receberem o bebê em casa ficou menos provável. Se a parada cardíaca tivesse ocorrido em casa, Marcela não teria resistido. Apesar de não apresentar nenhuma alteração grave em seu quadro clínico desde o dia 23 de dezembro, a alta, hoje, é uma hipótese remota. “O problema é que ela vai ter uma parada cardíaca ou respiratória, não sei quando. E é esse não sei quando é que preocupa”, disse Márcia Barcellos, pediatra que cuida da anencéfala. Indiferente ao teto que a abriga, Marcela mantém a serenidade. Durante o sono, segura, entre os pequenos dedos, um terço. Para uns, o símbolo da fé da mãe. Para outros, o ícone de um milagre.

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