Por mês, 34 crianças e adolescentes foram flagrados consumindo drogas e bebidas alcoólicas em Franca no ano passado. As estatísticas são do Conselho Tutelar, que, em 2006, atendeu a 413 casos de menores viciados. Mais de 70% das ocorrências foram problemas com alcoolismo. Os envolvidos, de ambos os sexos, tinham entre 12 e 17 anos, eram de vários bairros e de todas as classes sociais.
A maioria fazia uso do álcool em bares e festas open-bar (com bebidas à vontade), mas, em alguns casos, o "start" para os problemas com a bebida foi dado em casa, sob os olhos dos pais. "Muitos começaram em festas de família", disse Ely Vitoriano, conselheira tutelar há 6 anos.
Cerveja, pinga e até álcool puro, de uso doméstico, estão entre as doses ingeridas pelos menores. "As outras bebidas são mais caras. No caso da cerveja, existe um agravante. As pessoas não acreditam que ela vicia. É diferente da pinga, que já é rotulada como perigosa, forte." Mas, entre adolescentes, nem o rótulo inibe o consumo. O produto é barato e tem sido adicionado a refrigerantes.
As mais de 400 denúncias sobre o vício dos menores não representam o cenário real. Nem todos os casos são levados ao Conselho Tutelar. Quando chegam, são relatados por policiais, denunciados por anônimos ou um pedido de socorro dos pais. "Eles nos trazem histórias dos filhos somente quando a situação já está gravíssima. Ao saber da denúncia dos pais, o jovem fica nervoso, recusa-se a ir à escola, age com agressividade e faz ameaças aos familiares", disse Ely.
Após receber denúncia, os conselheiros tutelares chamam o(a) garoto (a) e os responsáveis por ele(a) para orientar, encaminhar para entidades de recuperação de dependentes químicos e fazer acompanhamento. "Explicamos os prejuízos sociais, de saúde, financeiros que a dependência do álcool e das drogas podem desencadear."
Nesses atendimentos, Ely Vitoriano descobriu que os menores não se preocupam com os riscos. Um dos casos mais marcantes de 2006 expõe a naturalidade com que lidam com a situação. A mãe de Pedro (nome fictício) chamou a polícia quando o filho de apenas 12 anos estava tomando cerveja com outro jovem de 17 anos em um bar. A PM acionou o Conselho Tutelar. Ao ser entrevistado pela conselheira, Pedro disse que bebia por não ver mal nisso e que, quando quisesse, conseguiria parar. "Eles pensam assim. Acham que não vão ser tornar dependentes."
Em 2006, mais de 250 adolescentes foram encaminhados para casas que tratam de usuários de drogas. Mas a medida não resolve. "É muito comum eles fugirem das entidades", disse Ely ao lembrar a história de João (nome fictício), 16. Ele começou a beber cerveja e pinga aos 14 anos e chegou a tomar álcool puro. Foi quando sua mãe pediu ajuda aos conselheiros tutelares, em janeiro de 2006. Acompanhado, foi atendido pelo Caps (Centro de Atendimento Psicossocial da Prefeitura) e clínicas para dependentes, mas abandonou o tratamento. "Ele não fica. Entra, sai, volta a beber, pára... Não consegue se livrar do vício."
ILÍCITAS
Os casos relacionados ao uso de drogas mais pesadas e ilícitas correspondem a 28% dos menores viciados identificados em 2006. As substâncias por eles consumidas são variadas, mas maconha e crack estão entre os mais comuns. "Cocaína é cara. Eles não têm como comprar", disse a conselheira Ely Vitoriano.
Os flagras do consumo acontecem nas ruas. "Eles cheiram e fumam sem medo de serem pegos. Quando abordados, não contam de quem compram, mas sabemos que é de traficantes."
Alessandra (nome fictício) é uma das jovens viciadas em Franca. Aos 13 anos, começou a beber vinho e pinga. Abandonada pela mãe quando bebê (o pai não acreditava que seria filha dele), foi criada pela avó na Vila Imperador. Ela disse que em casa havia muitas discussões. A bebida se tornou um refúgio para os problemas familiares. "Já estava cansada de tantas brigas. Eu era muito nova e não conseguia resolver isso. Bebendo, esquecia", disse ela, que costumava beber na rua.
Com 15 anos, Alessandra passou a consumir drogas também. "Experimentei de tudo: cocaína, haxixe, crack, maconha." O consumo era diário. Às vezes até em casa, enquanto os parentes trabalhavam. "Vivia dopada. Assim não brigava."
Para conseguir autorização da avó para sair, dizia que iria fazer trabalho de escola e pedia dinheiro para lanche e bolacha. "Tinha que sustentar meu vício. Cheguei a roubar aparelhos de DVDs, celular e roupas em lojas para ter como comprar drogas e bebidas. Até traficar, trafiquei."
Nos quatro anos de vício, Alessandra fugiu de casa, se desligou da família e interrompeu os estudos no primeiro ano do ensino médio. Aos 17 anos, o medo de ser morta pelos traficantes ou parar atrás das grades a fez procurar ajuda na Amafem (Associação Mão Amiga de Amparo Feminino) há cinco meses.
Hoje a garota que sempre quis ter pai e mãe faz planos para o futuro. Após deixar a entidade, quer ter filhos, constituir uma família, tirar carta, voltar a estudar e arrumar um emprego. "Tenho de recuperar o tempo."
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