Em defesa do produtor


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Maurício Miarelli, diretor-presidente da Cocapec, espera a adoção de uma política clara para o café no segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva
Maurício Miarelli, diretor-presidente da Cocapec, espera a adoção de uma política clara para o café no segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva
<p>O engenheiro agrônomo, Maurício Miarelli, graduado pela Escola Superior Agronômica de Lavras, com MBA em cooperativismo pela FEA/USP, de Ribeirão Preto, é presidente do Conselho Nacional do Café (CNC) desde 2005 e, em março do ano passado, foi eleito para um mandato de quatro anos como diretor-presidente da Cocapec (Cooperativa dos Cafeicultores e Agropecuaristas) de Franca, uma das maiores do País. A Cocapec, com 21 anos de fundação, congrega mais de 1.750 cooperados, tem 131 funcionários e seis unidades comerciais com capacidade para armazenar 800 mil do 1,5 milhão de sacas que a região produziu em 2006.</p> <p><br />Miarelli, que também é membro da Câmara Consultiva da BM&F (Bolsa Mercantil e de Futuros), do Grupo de Trabalho nomeado pelo Ministério da Agricultura Pecuária a Abastecimento para a implementação do PNDAC (Plano de Nacional de Desenvolvimento do Agronegócio Café) e Membro da Câmara Consultiva da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo, concedeu entrevista exclusiva ao Comércio da Franca. Nela, aponta a urgente necessidade de o novo governo Lula ditar com regras claras que política pretende empreender para a cafeicultura brasileira. </p> <p><strong>Comércio da Franca - Passados 21 anos de sua fundação, qual a realidade da Cocapec?<br />Maurício Miarelli</strong> - Desde a origem da cooperativa, que foi o núcleo da Cocap (Cafeicultores do Paraná), a missão ficou bem clara. Continua a mesma: é a defesa do interesse comercial do produtor e prestação de serviços, munindo o associado com assistência técnica, na comercialização, na compra comum de insumos, inserção do produtor na tomada do conhecimento da política do café, regras, condições de mercado. A Cocapec fez com que o produtor saísse um pouquinho de dentro da fazenda, que enxergasse o mundo do café fora do mundo da fazenda. Temos na cadeia do café os fornecedores de insumos, mas a grande dificuldade era a “pós-porteira”, como funciona esse mercado de café. Além da tecnologia, a cooperativa também deu uma oportunidade ao produtor de enxergar seu negócio de maneira global. </p> <p><strong>Comércio - Como o senhor analisa o tamanho da Cocapec, hoje?<br />Miarelli</strong> - Hoje, atravessamos um momento em que a posição é melhor do ponto de vista dos serviços que prestamos. Costumo dizer que a cooperativa é um serviço de primeira necessidade. E tenho certeza que para a grande maioria dos cafeicultores ela tem essa função. Recebemos aqui 50% do café produzido na nossa região. Embora a cooperativa tenha um porte bom, ainda tem muito a crescer. Acho até que se o produtor tiver a visão, o entendimento do que é nosso negócio, teríamos que ter 100% da produção aqui dentro. Quem quisesse comprar café na Mogiana, teria que passar pela cooperativa. Hoje o papel dela é preponderante no mercado. Não quero dizer que não deva haver concorrência, pois é saudável, mas a concentração do café na mão da cooperativa significa o produtor controlando a oferta do produto. </p> <p><strong>Comércio - Qual a importância do lançamento de produtos próprios, como a torrefação e moagem?<br />Miarelli</strong> - O primeiro passo foi organizar a produção na mão da cooperativa, ela ser referência de preço. Ela nem sempre paga o melhor preço, mas é baliza tanto na compra de insumos quanto na venda de café. O fato dela organizar metade da produção desta região e poder acertar alguns nichos de mercados foi muito importante. Numa segunda etapa, foi agregar valor, que é a torrefação e moagem do produto, já industrializado. É um desafio muito mais difícil, pois, internamente, o mercado é muito amplo; tem uma característica muito atípica de comercialização. É completamente diferente vender café torrado e moído de vender café verde. </p> <p><strong>Comércio - Há outros implicadores?<br />Miarelli</strong> - A própria carga tributária é uma coisa que nos dificulta muito. A cooperativa é uma empresa 100% formalizada. É uma série de dificuldades que temos de concorrência, mas a entidade optou por oferecer um produto de qualidade. Não abrimos mão da qualidade, pois não há sentido nisso. Sabemos que isso cresce lentamente, mas é um café que onde entra não sai. Nossas marcas estão sendo consolidadas lentamente. Estamos animados com o projeto do café torrado e moído. Queremos que nos próximos anos seja uma área onde a cooperativa possa fazer investimentos agregando mais valor ao produto dos cooperados. </p> <p><strong>Comércio - Por falar em marca, por que a Companhia Global Café não saiu do papel?<br />Miarelli</strong> - O plano da Global, que era a união de três cooperativas como sócias estratégicas, chegou muito próximo de ser realizado. Tivemos contratempos, acho que muito mais pela característica de empresa própria que a cooperativa tem. Tudo nela tem que ser exaustiva e publicamente discutido. Não há como fechar isso. Por reunir três cooperativas, abrimos muito o negócio, pois o cooperado tem que participar. E quando você abre muito, dá margem para que seus inimigos ajam contra. Não conseguimos fazer o negócio em segredo. Ser democrática não é defeito, é uma qualidade, mas discutiu-se tudo através de jornais, revistas, palestras, assembléias. Tudo isso expôs até algumas informações que deveríamos ter estrategicamente guardadas. Acho que isso foi o grande empecilho nosso. </p> <p><strong>Comércio - O projeto foi abandonado?<br />Miarelli</strong> - A Global hoje, sabemos ser um sonho que não pode ser esquecido, pois é a maneira que os produtores têm de ficar “mais próximos da xícara”. Só acreditamos que o produtor vai melhorar seu padrão de vida quando ele caminhar para o lado da xícara. O negócio do café continua sendo excepcional no mundo. Mas os países produtores participam muito pouco dessa riqueza. A idéia da Global era caminhar no sentido mais próximo do consumidor, pois como diz o ditado, “quanto mais próximo do pé de café, menos se ganha”. Queríamos que a Global fizesse a aproximação com o consumidor para que o produtor captasse mais desse lucro que o café gera no mundo. </p> <p><strong>Comércio - Como ex-membro do extinto Instituto Brasileiro do Café (IBC), onde o senhor vê o maior erro do passado na política cafeeira?<br />Miarelli</strong> - A cafeicultura teve dois momentos muito distintos no Brasil. Primeiro quando ainda havia a intervenção muito grande através do IBC, que o café tinha uma importância muito grande na economia brasileira e aí o governo tinha interesse direto. Quando se pensava no câmbio, se pensava no café. Quando se pensava nos juros, se pensava no café. Havia uma dependência muito grande. Com o desenvolvimento da economia brasileira, o café foi perdendo importância para o País, o que não foi ruim, graças à diversidade da economia. Com isso o governo se afastou da cafeicultura. Passamos um momento difícil. Imagine o produtor que vivia com a “muleta” do governo, ser abandonado totalmente. </p> <p><strong>Comércio - O governo não teve equilíbrio necessário?<br />Miarelli</strong> - Isso é o que eu acho ter sido o grande erro. Deveria haver uma forma de transição. Tanto é que, com a extinção do IBC, depois com o rompimento das cláusulas do acordo internacional, isso afetou a cafeicultura no mundo. Naquele momento não havia mais uma política para o café. Jogava-se tudo no mercado de uma vez só e isso trouxe modificações tremendas. Mas daí o cafeicultor tirou lições disso. Houve renovação do parque cafeeiro, modernização tecnológica das propriedades... O produtor fez uma verdadeira revolução nestes últimos 25 anos. Não há nada mais competente hoje que o produtor de café no Brasil. Reerguemos a cafeicultura. Ela é forte, mas o café é um produto especial. </p> <p><strong>Comércio - Precisa de política mais clara?<br />Miarelli</strong> - O mercado de café carece, no mínimo, de uma política de sinalização. Isso é para toda a agricultura. O governo tem obrigação de sinalizar o que quer. Se quer uma cafeicultura que atenda à demanda, o Brasil pode crescer na exportação, pois tem 30% da exportação; tem o segundo maior mercado, com 16 milhões de sacas, atrás apenas dos Estados Unidos e é possível que passe também a ser, nos próximos 10 anos, o maior consumidor, além de maior produtor. É possível que o País se torne uma plataforma de agregar valor ao café. Basta que o governo também entenda que isso seja importante. Ele tem que dar um norte e nos auxiliar nisso. Isso é de interesse da Nação.<br /> <br /><strong>Comércio - Toda essa importância passa por quais outros debates?<br />Miarelli</strong> - Estamos discutindo uma cafeicultura mais sustentável. O Brasil já fez uma boa lição de casa. Há um bom respeito à legislação trabalhista, à legislação ambiental. São normas extremamente rigorosas e o cafeicultor convive bem como elas. O País está muito bem preparado para poder avançar neste sentido </p> <p><strong>Comércio - Qual seria o ‘empurrão’ do novo governo Lula?<br />Miarelli</strong> - Acho que o governo tem que encarar isso. Ainda é importante o Brasil ganhar mercado, aumentar seu “market share” no exterior; é preciso aumentar o consumo interno para se tornar o maior consumidor de café do mundo, pois o brasileiro gosta de café e é possível transformar isso aqui numa plataforma de exportação do produto de valor agregado. Acho que esta é a grande transformação: como é que o governo enxerga esta questão? Não adianta o governo reclamar que a Alemanha exporta mais que o Brasil e ganha mais que o Brasil com café. Se não fizermos nada, se não haouver uma legislação e um ambiente fiscal próprios, um câmbio que nos ajude, tudo será desestímulo. Espero que o novo governo enxergue isso e dê os primeiros passos de uma forma bem definida, de forma que possa nortear a cafeicultura brasileira. </p> <p><strong>Comércio - E como está o fator preço atualmente?<br />Miarelli -</strong> Passamos por uma crise grande, um período de crise internacional de preço. Agora que era para estarmos num período bom, o câmbio nos judia novamente. Está nos atrapalhando. Pode ser que engate uma crise na outra ou que o produtor não consiga adquirir forças novamente. Como o café vive de grandes ciclos, de preço baixo e depois sobe, o produtor sabe disso. E sabe que, depois do preço alto, ele adquire reservas novamente, se fortalece, adquire musculatura para enfrentar nova maratona, nova crise. Este era um momento do produtor acumular suas reservas, pagar suas dívidas, para poder enfrentar novamente um período de crise que, seguramente, virá.</p>

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