Davos, Suíça, sediou um Fórum Social Mundial, em 2003, no qual foi desenhado um cenário ‘muito feliz’ para os próximos 14 anos, esboçando uma globalização bem sucedida na qual a explicação para as desigualdades regionais ocorridas nos últimos anos é o resultado do despreparo das populações atrasadas, da corrupção das elites e dos governos dos países pobres.
A principal tese defendida por esses líderes é a de que cada um deve continuar concentrando-se na busca do lucro máximo e que os governos devem continuar de fora do processo, sem qualquer intervenção. Crêem eles na velha teoria da ‘mão invisível’ de Adam Smith, que quer significar mais ou menos o seguinte: não é pela virtude do agricultor, do açougueiro ou do feirante que se tem fartura na mesa, mas pelo egoísmo deles em produzir mais, lucrar mais que se tem o alimento, ou seja, é agindo em nome do interesse próprio que o coletivo se beneficia; ao conduzir e perseguir seus próprios interesses, o homem contribui para com os da coletividade.
Não é por acaso que se desenha esse cenário com essas cores. Existe explicação adequada para todo esse otimismo. A consolidação da democracia, o crescimento da classe média, o desenvolvimento acelerado, a revogação dos poderes militares (que irônico, foram eles, os EUA, que financiaram as revoluções, temendo o comunismo austral; o pior é que Hugo Chaves e Evo Morales, estão por aí!), a pacificação de alguns países integristas, bem como o recuo geral das políticas autoritárias no mundo pós-comunista, foram os principais argumentos das elites do Fórum de Davos.
Mesmo sabendo que todas as grandes potências mundiais, desde a Suméria, passando pela Babilônia e chegando a Roma - cujos impérios tiveram seu apogeu e conseqüente declínio -, não se subtrai a idéia americana da superpotência ad infinitum.
A hegemonia dos EUA exercida em todo o globo, principalmente após o ‘11 de Setembro’, continuará sendo sustentada pelo desejo de uma Pax Americana, ou seja, a política americana como uma fonte permanente de estabilização do planeta. Isso se explica historicamente pelo ‘Tratado de Viena’, o qual, no século XIX, conduziu a Europa a uma inimaginável paz (1815-1914). A Grã-Bretanha, a principal articuladora desse período o qual permaneceu na História como a Pax Britanicca, tinha como estratégia hegemônica a concepção do equilíbrio do poder como política e não como sistema. O artifício consistia em tranqüilizar os governos da Europa Continental com a garantia de que mudanças no equilíbrio do poder só se produziriam depois que outras potências fossem consultadas, tendo, inclusive, convidado os EUA a vincularem-se ao princípio de não-intervenção.
Importante mencionar que os países que detém o controle da economia mundial e, em função disso exercem seu poderio, tal como os EUA, têm muitos diques a conter, dentre eles o Islã, que mobiliza a classe média do mundo muçulmano com um sistema de idéias dogmaticamente organizado e que se contrapõe fortemente ao Ocidente, inclusive, tendo como aliados ricos comerciantes, engenheiros, advogados, membros da família real saudita, etc.
Muitas surpresas aguardam não apenas ideólogos, teóricos, economistas ou filósofos, mas também a população interessada em acompanhar o desfecho dos acontecimentos nos próximos 16 anos.
NADIR APARECIDA CABRAL BERNARDINO é advogada formada pela FDF, pós-graduada em Direito Ambiental e Política e Estratégia.
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