Território democrático até bem pouco tempo atrás, a Internet permitiu que qualquer pessoa escrevesse suas opiniões em blogs e fóruns e tivesse acesso ao conhecimento em enciclopédias digitais, a conteúdos culturais, incluindo músicas e vídeos gratuitamente.
Na China, em Cuba e em outros países de governo autoritário, o acesso a certos websites é proibido. No Brasil isso não era assim, até que a modelo Daniela Cicarelli e seu namorado Renato Malzoni resolveram transar em uma praia pública na Europa e tiveram o azar de um espanhol filmar tudinho e divulgar na Internet. Bem, aí o garotão tentou impedir que as pessoas assistissem ao vídeo de suas travessuras pelo You Tube (www.youtube.com), o mais popular site de vídeos da Web. A administração do You Tube bem que apagou o vídeo, mas as pessoas que tinham arquivado o filminho em seus HDs postaram de novo e de novo e de novo. É praticamente impossível controlar o conteúdo dos milhões de vídeos que pessoas do mundo inteiro colocam no ar via You Tube.
Bem, aí os advogados do namorado da modelo conseguiram convencer o desembargador Ênio Santarelli Zuliani, do Tribunal de Justiça de São Paulo, a mandar os provedores de Internet proibirem aos brasileiros o acesso a todo o site You Tube, numa atitude equivalente a proibir a imprensa de todo o Brasil de publicar jornais por conta de uma foto reproduzida em um único jornal.
A reação foi imediata. Sites e comunidades do Orkut como "Boicote Cicarelli" e "Cicarelli, feche as pernas, não o You Tube" visaram protestar contra a arbitrariedade. Os internautas propuseram, entre outras coisas, que todos que se indignaram com essa censura não consumissem nenhum produto anunciado pela modelo, e divulgaram links com o polêmico vídeo em outros sites de vídeo (Google Video, Videolog.tv, Vídeo Sapo, Daily Motion, Metacafe, Guba, Bolt,Grouper). A MTV, canal onde Cicarelli apresenta o programa Beija Sapo, recebeu mais de 50 mil e-mails de protesto.
A atitude mais interessante dos ciberativistas*, entretanto, foi divulgar um truque para driblar o bloqueio determinado pela Justiça e acatado por muitos dos provedores.
A intenção não foi apenas arrumar uma maneira de se ter acesso ao You Tube, mas mostrar a ineficácia dessas agressões ao direito de ir e vir virtual. A decisão da Justiça foi revisada, os provedores podem deixar a gente acessar o You Tube de novo, mas a estratégia ensinada pelos ciberativistas subversivos pode ser útil para furar novos bloqueios se, no futuro, outras atitudes autoritárias deste tipo forem tomadas por pessoas que arbitram sobre assuntos que desconhecem.
Por hora, a questão está encerrada, mas o Brasil já passou pelo vexame de ser tema de matéria sobre censura na Internet em veículos como o The New York Times e a CNN.
Espera-se também que os jovens demonstrem o mesmo empenho e mobilização na hora de protestar contra outras injustiças e escândalos ocorridos no País.
O episódio serve ainda para mostrar a Renato Malzoni que ele tem o direito de fazer o que quiser com sua namorada, mas não com os internautas.
*Ciberativismo: forma de ativismo feito por meios eletrônicos. Exemplo disso é o envio de milhares de e-mails para protestar contra o aumento dos salários dos deputados proposto pela Mesa Diretora da Câmara, que lotou a caixa de mensagens dos responsáveis pela lambança. Destacam-se também as manifestações contra a guerra no Iraque combinadas pela Internet ou ainda a divulgação do nome das empresas que usam produtos transgênicos sem rotulagem pelos ecologistas do Greenpeace.
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