<p>Gilson Pelizaro (PT) é o principal ícone da reduzida oposição ao prefeito Sidnei Rocha (PSDB) na Câmara Municipal. Persona non grata do prefeito, que já o acusou de representar “tudo o que há de mais nojento na história política da cidade”, respondeu aos ataques de Sidnei. Sem citar o nome do tucano e usando apenas um substantivo para se referir a ele, “prefeito”, o que Pelizaro não poupou foram os adjetivos. “Ditador”, “autoritário”, “arrogante”, “covarde”. </p>
<p>O mais curioso deles foi “maquiador”. Para o vereador, a maquiagem que Sidnei vem fazendo na cidade o credenciaria a assumir o cargo de maquiador no salão de seu colega de Câmara, Zezinho Cabeleireiro (PTB), que ainda não conta com o serviço. </p>
<p><br />Em seu gabinete na Câmara Municipal, decorado com porta-retratos e quadros com fotos ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), do senador Eduardo Suplicy (PT) e da ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy (PT), o petista criticou a inexperiência dos atuais vereadores, o escândalo do disque-sexo e a subserviência da Câmara em relação ao prefeito, a qual apelidou de “bancada do amém”. Em seu quarto mandato consecutivo, o petista não hesitou em afirmar que o Legislativo não tem cumprido seu papel de maneira satisfatória e que essa é a pior legislatura de que participou em sua vida política. </p>
<p><strong>Comércio da Franca - Como vereador experiente, em quarto mandato, o senhor considera que a Câmara Municipal tem cumprido seu papel?<br />Gilson Pelizaro</strong> - Como Poder Legislativo, não. Ela está atendendo aos anseios do Executivo e, às vezes, tem aberto mão de assuntos essenciais para melhorar o andamento da cidade. Eu avalio que a Câmara, tanto no primeiro quanto no segundo ano, tem feito tudo aquilo que o prefeito quis. E aceitado até não discutir as matérias, porque chega aquele calhamaço de papel e os vereadores não têm nem a oportunidade de analisar os documentos. Simplesmente a Câmara virou um despachante cinco estrelas, chancelando o que o prefeito manda sem discutir, sem debater. </p>
<p><strong>Comércio - Se o senhor tivesse que apontar um erro da atual legislatura, qual seria ele?<br />Pelizaro</strong> - A subserviência, sem dúvida, seria um deles. Eu fui oposição na época do governo Ary (Balieiro, PTB), fui situação nos dois governos do Gilmar (Dominici, PT) e nunca vi uma relação impositiva ao Legislativo como tem sido essa questão ligada ao atual prefeito. Inclusive, eu o vi (Sidnei Rocha, PSDB) falando no balanço de 2006 que está satisfeito com a Câmara. Só faltava ele ter alguma crítica. Infelizmente nós temos aqui a bancada do amém. Os vereadores só dizendo “amém, amém, amém” para o Executivo. </p>
<p><strong>Comércio - O senhor acha que esse é um dos motivos da má imagem da Câmara hoje (pesquisa encomendada pelo Comércio apontou que a população dá nota 5,44 para o Legislativo)?<br />Pelizaro</strong> - Sim, sem dúvida. Somados também a atos da administração da própria Câmara em 2006, o problema da anulação da prova de advogado do concurso público, os ataques do presidente (Marcelo Mambrini, PMN) a colegas da base de sustentação, puxão de orelha do Ministério Público, o uso de carro da Câmara para visitar a mamãe. Tudo isso contribui para arranhões à imagem da Câmara. </p>
<p><strong>Comércio - A que o senhor atribui esses atos do Mambrini?<br />Pelizaro</strong> - O Marcelo Mambrini é uma pessoa bem-intencionada, mas precisava de maior preparo e experiência para conduzir tanto o Legislativo quanto o seu próprio mandato. Eu fui um dos únicos, na época da eleição do Mambrini, quando veio do gabinete um “pacotaço” com os nomes de toda a Mesa Diretora, que falei que era um equívoco disputar uma presidência com apenas um ano de Câmara. Não fui ouvido e ele sofreu um desgaste enorme, apesar de ter feito algumas coisas boas, como o concurso público. O fato do concurso é louvável, contribuiu para agilizar os serviços da Câmara, mas o problema é o modo como ele foi feito. Às pressas. Deu no que deu (a prova de advogado do concurso acabou anulada por Mambrini, no dia 29 de dezembro). </p>
<p><strong>Comércio - Na opinião do senhor, falta experiência a Mambrini. Falta também à maioria dos outros vereadores?<br />Pelizaro</strong> - Até pela inexperiência de muitos, confesso que já participei de Câmaras muito melhores. Na minha primeira legislatura (1993-1996), fui oposição e tínhamos aqui nomes de peso. Téo Maia, Fábio Cruz. Apesar da divergência ideológica, sempre houve uma discussão política mais apurada em plenário. Era uma coisa de um nível bem mais elevado. Tínhamos Gilmar Dominici, Hélio Rodrigues, pessoas com um poder de discussão bem maior. </p>
<p><strong>Comércio - A falta de discussão hoje é um problema de despreparo dos vereadores ou do controle exercido pelo prefeito?<br />Pelizaro</strong> - São as duas coisas. O prefeito usa de uma Câmara inexperiente. Inclusive, a liderança do prefeito usa desse expediente. Então, são as duas coisas somadas. O Executivo se aproveita dessa inexperiência, manda uma série de urgências, os vereadores sequer têm tempo de olhar o projeto e muitos deles nem mesmo entendem o que está sendo votado em determinada matéria. A coisa vem de uma hora para outra, não tem a tramitação devida dentro da Câmara, as comissões não se manifestam, os pareceres são feitos de uma hora para outra. A gente mal consegue analisar a questão de mérito do projeto, por que é feito tudo em cima da hora. E isso favorece o Executivo. Inclusive o próprio líder governista (Jepy Pereira, PSDB), que às vezes não desperta o interesse dos vereadores da situação para ler a proposta e acaba sendo a bancada do amém. Teve projeto de mais de 600 páginas em regime de urgência. Isso é subestimar a inteligência de alguém que ocupa um cargo no Legislativo. E para convencer a adiar uma matéria dessa é uma dificuldade. </p>
<p><strong>Comércio - Isso muda com Joaquim Ribeiro na presidência em 2007?<br />Pelizaro</strong> - Espero que sim. Ele tem feito um discurso de independência na tribuna da Câmara e foi isso que nos motivou a votar nele para presidente. Mesmo com essa história de pacto com o prefeito, acho que será um pacto muito curto, até pelo perfil ditatorial e autoritário do prefeito, que tem mania de tentar passar por cima de todo mundo. Será um pacto de quatro a cinco meses. Até porque me parece que o prefeito faz um pacto por interesses próprios e não pelo interesse da cidade, vislumbrando 2008, com a intenção de sabotar uma candidatura que seria a do Joaquim, coisa que eu acho difícil, para se reeleger.<br /></p>
<p><strong>Comércio - O voto favorável de Joaquim Ribeiro à mudança do local do CDP (Centro de Detenção Provisória) recentemente te surpreendeu?<br />Pelizaro</strong> - Além de surpreender, decepcionou. É lógico que não é só isso que eu tenho que avaliar para votar em um presidente da Câmara. A gente sabe da conduta dele. Mas, minutos antes da votação, ele tinha dito tanto para mim quanto para o Silas Cuba (PT) que não votaria favorável. Já havia um acordo prévio entre a gente de que não passaria o projeto. Com a ausência de alguns vereadores, já havíamos contado os votos e conversado entre nós. O Joaquim tinha dado um sinal de que não votaria e acabou votando a favor. Mas o Joaquim é meu amigo e eu espero que a conduta dele na presidência da Câmara não seja de submissão. </p>
<p><strong>Comércio - A gestão de Joaquim já começou com um escândalo, o do disque-sexo, em que um processo investiga mais de 200 ligações de ramais da Câmara para o celular de uma suposta prostituta de Divinópolis entre janeiro e setembro de 2006. O senhor acredita que isso vá abalar a administração do novo presidente?<br />Pelizaro</strong> - Na verdade, esses assuntos abalam a Câmara como um todo. O que está sendo apurado não começou na gestão do Joaquim. A gestão dele começou no dia 1º de janeiro. Então, ele não tem nada a ver com isso. Mas, é lógico, ele tem uma responsabilidade muito grande, a de conduzir com muita firmeza uma investigação muito séria e bem ampla para descobrir o responsável por essas ligações. </p>
<p><strong>Comércio - O prefeito Sidnei Rocha disse, em entrevista ao Comércio, que o senhor “representa tudo o que há de mais nojento na história política da cidade”. Como o senhor recebeu os ataques do prefeito?<br />Pelizaro</strong> - É de se lamentar, até porque essa não é uma postura de um estadista. Como ele foi prefeito pela primeira vez na época da ditadura militar e foi um escrivão de polícia no mesmo período, talvez não esteja acostumado com a democracia. Talvez ele queira que a Câmara seja 100% a bancada do amém, o que não ocorre nem comigo nem com o Silas, e isso pode ter dado essa “raivinha”. O prefeito, ao longo de dois anos, tem utilizado freqüentemente seu cargo para ofender as pessoas. Não foi só o Gilson Pelizaro. Foram os moradores da Vila Raycos, chamados por ele de macacos, foi o policial militar na questão dos cones. Isso mostra que o prefeito precisa melhorar suas relações. Não é porque ele é o prefeito da cidade que ele precisa ser arrogante, como 42% da população de Franca o classificou na pesquisa publicada pelo próprio Comércio. Ele precisa reavaliar sua conduta e tem que ver que seu segundo mandato não é mais na época da ditadura militar. Nojento é ofender a honra das pessoas, como ele ofendeu. Nojento é o passado político dele, em que abandonou a cidade, foi dirigir uma estatal. Direção desastrosa a dele frente à Vasp, diga-se de passagem, inclusive com comprovação do Tribunal de Contas. </p>
<p><strong>Comércio - O senhor chegou a fazer um desafio político a ele na tribuna da Câmara. Qual foi?<br />Pelizaro</strong> - Eu queria que ele comparasse o histórico dele, desde que ele era escrivão de polícia e fosse analisado o crescimento econômico que ele teve ao longo desse tempo. É claro que ele vai atribuir isso à competência. Vai ser competente lá na... (não completou), né?! Para evoluir como evoluiu. Eu queria que ele pegasse uma declaração de bens de quando assumiu como vereador e fizesse a mesma coisa comigo. Esse desafio está aberto. E eu estou pronto para debater com o prefeito onde ele quiser e quando ele quiser. Esse desafio também está aberto. Não como ele fez comigo utilizando covardemente de uma entrevista de balanço de fim de ano. O prefeito tem que ter divergência, sim, políticas, mas não no lado pessoal. Até porque, pessoalmente, eu nem conheço o prefeito, não sou amigo dele e nem tenho interesse em ser. Eu o respeito enquanto prefeito e espero que ele também o faça com alguém que foi eleito pelo povo como ele. Eu não fui eleito para bajular o prefeito. Coisa de que ele gosta muito, de bajulação. </p>
<p><strong>Comércio - Como fica o PT para as eleições de 2008, depois da pequena votação que o ex-prefeito Gilmar Dominici (PT) teve na eleição para deputado?<br />Pelizaro</strong> - Temos um planejamento para traçar uma estratégia. O PT ainda é um partido forte. Tivemos um problema nessa eleição para deputado? Sim, tivemos. Mas cada eleição é uma eleição diferente e eu tenho certeza de que o PT vai encontrar alguém para representá-lo em 2008. </p>
<p><strong>Comércio - O PT terá candidato próprio para a disputa pela Prefeitura?<br />Pelizaro</strong> - Creio que sim. E com força total, para demonstrar os pontos negativos dessa administração. A área da Saúde, gente morrendo na porta do Pronto-Socorro “Dr. Janjão” e da Santa Casa. Em educação, o prefeito se vangloriando de ter feito duas escolas em dois mandatos. No governo anterior, foram 23 em oito anos. O prefeito está fazendo a maquiagem. Esses dias fiz uma brincadeira com o Zezinho Cabeleireiro (PTB) perguntando se no salão dele tem maquiador. Eu sugeri que ele levasse o prefeito. O prefeito é um ótimo maquiador. Um exemplo são as obras no Córrego dos Bagres. Uma vergonha aquele mar de lama que tomou conta das avenidas, dando inveja à marginal Pinheiros, em São Paulo, depois de mais de R$ 2 milhões investidos e propaganda de que o problema foi resolvido. </p>
<p><strong>Comércio - Gilson Pelizaro pode ser o candidato?<br />Pelizaro</strong> - Eu não vou dizer que isso não passa pela cabeça de alguém que tem quatro mandatos como vereador e entrou na política tão novo. Eu não costumo fugir de desafios, mas é lógico que não pode ser uma candidatura que parta de mim mesmo.</p>
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