Se perguntar a um fotógrafo qual a ferramenta indispensável para sua rotina de trabalho, certamente a resposta será o olho. É o olho, e não a máquina o grande diferencial de um fotógrafo de linha, ou repórter fotográfico. Sua sensibilidade aguçada capta o olhar perdido da criança num cenário tomado pela miséria; o momento de angustia da garota que perdeu o amigo em um acidente de trânsito; os sulcos do tempo cravados no rosto de uma senhora registrado durante passagem pelo sertão baiano. Da mesma forma que textos de escritores como Machado de Assis, Clarice Lispector ou José Saramago são inconfundíveis e logo associados ao autor, as imagens também têm sua marca registrada, ou seja, o processo de fazê-la é autoral.
Contar uma história através do que se vê. O repórter sabe muito bem o que é isto. Registra tudo em anotações, guarda as impressões em sua memória e, depois, ao reunir tudo junto com os relatos de fontes, transfere para o texto a sua história. O fotógrafo também conta a sua história. Alegria, tristeza, dor, desespero, enfim, o fotojornalista vai além do cenário e do personagem, registrando em uma foto, o acontecimento. Henri Cartier-Bresson, um dos “papas” da fotografia, dizia que “os fotógrafos não fazem mais do que mostrar as agulhas do relógio, mas eles escolhem os seus instantes”.
Silva Júnior, de volta de uma viagem que fez à Bahia junto com a repórter Patrícia Paim para contar a história dos colhedores de café que se instalam na região de Franca sazonalmente durante a colheita para levar sustento às suas famílias no sertão baiano, disse: “Dava até para ‘ver’ saudade nos olhos da senhora, que iluminada por uma lamparina em sua casa de pau-a-pique espera pela noite, sozinha”. O fotógrafo do Comércio falava de dona Tertulina Rosa de Jesus, de Lagoa da Prata, distrito de Sussuarana (BA).
PROFISSÃO
O fotojornalista opera o fragmento do fato. É ele que escolhe “isto” e não “aquilo” no momento de registar aquela fração de segundo de algo que aconteceu e merece ser notado, daí, seu trabalho ser também notícia. Esta é a razão perceptiva que o legitima também como jornalista.
Para ser fotojornalista, além de um bom olho é necessário ter registro no Ministério do Trabalho. Não há formação específica, apesar de se ter disciplina sobre o assunto em faculdades de Comunicação Social. Mas muitas redações investem em profissionais com formação acadêmica especifica em Comunicação, outras com qualquer formação e ainda há outras que admitem os sem formação mas com talento. É importante, no entanto, que o profissional tenha sólidos conhecimentos gerais e culturais.
As associações de fotojornalistas ajudam a regulamentar a profissão e a definir o piso por trabalhos realizados, que variam de acordo com as especificidades de contratações, como “frilas”; com jornada de trabalho de 5 ou 7 horas; com equipamento de trabalho próprio ou da empresa jornalística; tipo de mídia a veicular o seu trabalho. Os ganhos no Estado de São Paulo, por exemplo, podem variam entre R$ 339 a até R$ 4.250.
IMAGEM DA ALMA
Conhecimento técnico e teórico dos equipamentos, de imagem, técnicas de iluminação entre outros truques para se adquirir uma bela imagem é parte da bagagem de um fotógrafo. Mas sensibilidade é fundamental para que as histórias possam ser contadas por inteiro.
Não fosse a sensibilidade de seus olhos, Divaldo Moreira, fotógrafo do Comércio da Franca, não teria conseguido fazer as lentes de sua Canon captar vida nas fontes de água das nascentes dos principais córregos francanos, Bagres e Cubatão. As imagens foram impressas em tablóide especial, tamanho o empenho do fotógrafo em mostrar seu trabalho. “Era como seu eu pudesse mostrar a alma daqueles córregos que eram grandes quando eu era pequeno e que estão morrendo assoreados”, disse.
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