É dando que se recebe


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Há uma história com o líder espírita Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier, morto em 2002, a qual relata que certo dia, quando caminhava pela rua apressado rumo ao centro espírita onde atendia fiéis, Chico foi interpelado por um homem que pediu a sua bênção e algumas palavras de conforto, ali mesmo na rua, pois necessitava delas muito. Chico, ainda um jovem, resistiu àquele pedido, pois já estava bastante atrasado para abençoar outras dezenas de pessoas que o esperavam no centro. Por muita insistência, o médium acabou por realizar o desejo do homem e o abençoou. Ao terminar, o homem agradeceu a prece, momento no qual Chico Xavier viu emanando de sua boca um feixe de luz que o inundou de um sentimento de alegria e êxtase. Percebeu, então, o jovem espírita, que quem precisava mesmo daquela bênção era ele e não o seu admirador. Era como se o homem “recarregasse as baterias” de Chico. As boas ações, certamente, são motivo de satisfação para quem recebe. Mas é mais certo ainda que quem pratica um ato de benevolência tem uma sensação tão boa ou de intensidade ainda maior do que quem recebe. Tão certo, que a ciência já consegue explicar tal reação. Um estudo liderado pelo neurocientista brasileiro Jorge Moll Neto, pesquisador dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, traz uma explicação para tais sensações. Ao fazermos uma boa ação, segundo ele, acionamos no cérebro o sistema de recompensa. O mesmo que se liga a situações de prazer, como comer chocolate, fazer sexo, ganhar dinheiro ou consumir drogas. A pesquisa, foi feita com 19 voluntários submetidos a ressonância magnética funcional enquanto tinham de decidir o que fazer com os US$ 128 que haviam acabado de receber: se guardavam para si ou doavam para alguma instituição filantrópica. Em média, os participantes toparam dar metade do que tinham ganhando - as doações variaram entre US$ 21 e US$ 80. A ressonância mostrou que a simples doação ativava tanto o sistema de recompensa como uma outra parte do cérebro conhecido como córtex subgenual, relacionado às ligações de longo prazo entre as pessoas. Quem mantinha o dinheiro para si ativava apenas a primeira área. VIOLÃO E CHOCOLATE Para algumas pessoas, o tempo é vilão. Outras, além de saber aproveitá-lo, priorizam aquele dedicado ao voluntariado. Talita Machiavelli do Carmo, 24, por exemplo, é subgerente de marketing em período integral, dá aulas particulares de violão para pelo menos dez pessoas após o expediente durante a semana e ainda encontra tempo - três horas semanais - para ensinar crianças, jovens e adultos da ONG (Organização Não-Governamental) Grupo de Ensino Veredas a tocar violão. Todos os sábados, ela transforma a instituição, que fica no bairro Recanto Elimar, em um grande palco musical. Voluntária no grupo há seis meses, para ela a recompensa está no brilho nos olhos de cada aluno ao acertar os primeiros acordes. “Para mim, é como comer chocolate. Sinto a mesma sensação de prazer e satisfação quando me visto de voluntária e ofereço o que eu sei a outras pessoas”, afirma Talita. Além dela, outros jovens que integram o grupo de voluntários do Veredas têm explicações semelhantes para justificar tamanha dedicação sem receber dinheiro em troca. “Não há salário que pague momentos como quando a criança desenvolve a primeira seqüência de golpes sozinho e te agradece por isso”, conta o professor de kung fu Leandro Faria de Andrade, 19. Jean Carlos de Menezes, 24, também justifica sua satisfação pessoal no comparecimento de cada adulto, jovem ou criança às aulas de tai chi chuan. “Gosto de ajudar. Faz bem para meus alunos e para mim também”, diz o jovem.

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