<p>Três anos de dedicação, muitas conquistas e alguns desapontamentos. Desta forma, o presidente da Fundação Civil Casa de Misericórdia de Franca, Onofre de Paula Trajano, resume sua passagem à frente da instituição. Segundo ele, esta trajetória terminará em 13 de fevereiro, quando haverá eleições, das quais ele não participará. "Meu tempo na Santa Casa acabou", ressalta ele. </p>
<p><br />Seu envolvimento com a saúde em Franca começou em 2001, quando foi "intimado" pela irmã, Luiza Trajano Donato, a acompanhar o andamento das obras do Hospital do Câncer. A seguir, assumiu a direção da unidade e, logo depois, a provedoria da Santa Casa.</p>
<p><br />A maior conquista, segundo ele, foi a obtenção de recursos milionários, que ajudaram a controlar um crescimento desenfreado da dívida que era de R$ 20 milhões quando Trajano assumiu e hoje chega à casa de R$ 22 milhões. "Se eu não tivesse corrido muito atrás de dinheiro estaria superior a R$ 30 milhões". <br />Já a frustração ficou por conta, principalmente, da falta de apoio dos políticos de Franca e região. "Infelizmente, não consegui unificar as forças de deputados e prefeitos. Sempre que havia problemas, acabavam em minhas costas. Mas, a partir de agora, a história é outra: se não se mexerem a Santa Casa poderá parar", disse. </p>
<p><strong>Comércio da Franca - O senhor realmente deixará a Santa Casa? A decisão é irrevogável?<br />Onofre de Paula Trajano</strong> - Está decidido. Deixo a Santa Casa no dia da eleição (13 de fevereiro). Cumpri meus três anos de mandato à frente da Santa Casa e abro espaço para meu sucessor. </p>
<p><strong>Comércio - Quem será seu substituto?<br />Trajano</strong> - Há uma comissão tratando disso para mim. Ainda está na fase de consultas.Não temos um nome definido. Mas há pelo menos dois ou três elementos muito bons. Expliquei a eles que vou continuar ajudando, vou ficar por trás. Talvez eu assuma até algum cargo para que haja uma ação tranqüila. </p>
<p><strong>Comércio - E se não houver candidatos?<br />Trajano</strong> - Vai haver, acredito muito nisso. Terá de ser uma pessoa altruísta. Terá de assumir um ônus muito grande. Isso é vital, porque no Brasil ninguém quer ônus, mas somente bônus, porque a política de saúde do SUS é totalmente desfavorável às filantrópicas. </p>
<p><strong>Comércio - O superintendente Fernando Bueno, seu principal executivo, continuará na fundação após sua saída?<br />Trajano</strong> - Trabalhei com o Fernando Bueno na Acif durante quatro anos e é uma pessoa na qual confio plenamente. É competente, honesto e trabalhador. Acredito que o Fernando deverá continuar. Dependerá do novo presidente. Eu acho que ele não poderia abrir mão do trabalho do Fernando. </p>
<p><strong>Comércio - Políticos locais criticam Bueno, acusando-o de ser arrogante e dizendo que tem um salário astronômico na Santa Casa. O que o senhor pensa dessas críticas?<br />Trajano</strong> - Primeiramente, penso que críticas não podem ser levadas para o lado pessoal. Devem ficar restritas ao âmbito do trabalho. Bom, um administrador não pode ser mole, tem de ser firme. O Fernando é muito positivo, fala o que pensa. Não mente. Não é verdade que ele ganha um salário absurdo. Ele ganha R$ 8 mil brutos, que caem para pouco mais de R$ 6 mil líquidos para trabalhar entre 12 e 14 horas por dia. Hoje não se encontra um executivo como ele por menos de R$ 15 mil. Se ele sair hoje da Santa Casa tem condição de ganhar isso em qualquer hospital. Não há nada astronômico. No primeiro ano, a Acif ainda ajudava com R$ 2 mil. Para mim, o trabalho que ele faz, hoje, na Santa Casa, não tem preço. </p>
<p><strong>Comércio - Quais foram suas principais conquistas?<br />Trajano</strong> - Acho que o mais importante que fiz foi levantar a credibilidade da instituição. Todo mundo hoje acredita na Santa Casa. Isso só veio com a grande quantidade de recursos que consegui para cobrir o grande déficit que o SUS (Sistema Único de Saúde) dá à Santa Casa. Foi nos governos do Estado e Federal. Não é um trabalho fácil. Ano passado só consegui recursos estaduais por interferência direta do governador, do prefeito de São Paulo (Gilberto Kassab) e do presidente da Assembléia Legislativa (Rodrigo Garcia), porque o secretário da Saúde, Luiz Roberto Barradas, barrava tudo mesmo que era para nós. </p>
<p><strong>Comércio - Quanto o senhor conseguiu de recursos nesses três anos?<br />Trajano</strong> - Não tenho uma conta exata. Mas se formos somar recursos financeiros e também os equipamentos que conseguimos trazer para a Santa Casa, chegaremos a pelo menos R$ 12 milhões, R$ 13 milhões.<br /></p>
<p><strong>Comércio - E a estrutura física do hospital? O senhor apontaria algum avanço específico?<br />Trajano</strong> - Mudou muito. Tínhamos problemas estruturais no quinto andar, no Centro Cirúrgico. Lá não tinha nem ar condicionado para que os médicos operassem os pacientes. Foi tudo renovado, assim como o segundo, o terceiro e o quarto andares. Recebi a Santa Casa caindo aos pedaços, com o pessoal todo desmotivado. Hoje você vê que o pessoal trabalha com amor. </p>
<p><strong>Comércio - Como a população viu estas mudanças?<br />Trajano</strong> - Muito bem. Tenho cartas aqui de pacientes<br />elogiando a Santa Casa. Mas há falhas, claro, porque todos lá são humanos, as enfermeiras, os médicos. Mas também tem aquela história: se você fizer 99% para uma pessoa, por 1% ela achará que você não presta. Há pessoas que por qualquer coisa querem desmoralizar a Santa Casa, mas não conhece a grandiosidade do hospital: lá nascem 400 crianças por mês, 4,8 mil por ano. Fazemos centenas de cirurgias. São centenas de cirurgias. Acontece qualquer probleminha, já vira escândalo. O cartão SUS ajudaria bastante, pois acabaria com a burocracia, com esse negócio de mandar fax, receber fax. Mas pouca gente tem o cartão. </p>
<p><strong>Comércio - Como fica sua imagem pessoal e empresarial após três anos no comando da fundação?<br />Trajano</strong> - Sem qualquer arranhão. Dediquei-me de corpo e alma. Não usufrui de nada, apenas servi à instituição, com carinho. Arrisquei até meu patrimônio pessoal, meu nome inclusive, avalizando grandes somas. Cansei de falar para fornecedor entregar mercadoria que eu garantia. Viajei em meu carro, ou de avião, sempre por minha conta. Até refeições eram por minha conta. Ajudei financeiramente e moralmente a se reerguer. E fomos transparentes o tempo todo. </p>
<p><strong>Comércio - Quanto o senhor chegou a empregar de recursos próprios em prol da fundação?<br />Trajano</strong> - Essa é uma coisa que não gosto de mencionar, prefiro não dizer. Mas em todas as campanhas, como o Mc Dia Feliz, para o Hospital do Câncer, eu estava lá ajudando. Mas isso a gente faz por ter noção de nossa responsabilidade social. Acho que o fundamental é que doei meu tempo, minha disposição, meu amor e meu sacrifício. Também alguns recursos, mas isso nem vale mencionar. </p>
<p><strong>Comércio - E quais seus principais fracassos?<br />Trajano</strong> - Não vejo fracassos, mas reconheço que ainda tem muito a ser feito. Apesar da comida ser muito boa, precisamos de uma grande cozinha industrial, uma lavanderia melhor. Estamos melhorando, agora, as instalações do neo-natal, da maternidade. Posso dizer hoje que muita autoridade política ainda não entendeu a importância do hospital. Se não cuidarmos, as mesmas autoridades terão de construir um hospital público, porque a Santa Casa terá de ser desativada. Os prefeitos de Franca e região não podem continuar lavando as mãos como têm feito. Fazem parte do problema, têm de fazer parte da solução. </p>
<p><strong>Comércio - O senhor crê que seu substituto manterá sua posição de cortar atendimentos se as Prefeituras da região não ajudarem? O secretário da Saúde, Alexandre Ferreira, disse que não acredita que a medida seja efetivada.<br />Trajano</strong> - Se não cortarmos, o hospital ficará inviável. Quem pode continuar com um prejuízo operacional em torno de 40% de seu faturamento? Ou enxugamos, ou não teremos mais como sobreviver. Acredito que os prefeitos vão entender isso. Tem de ter ação. Se eles se unirem, poderão conseguir recursos com o governo estadual. </p>
<p><strong>Comércio - Mas o senhor mesmo disse que é difícil conseguir recursos.<br />Trajano</strong> - Pelo prestígio que tem Franca hoje, com dois deputados estaduais e um federal já não é tanto. O prefeito de Franca (Sidnei Rocha - PSDB) é do partido do governador José Serra, que já foi ministro da Saúde, conhece o problema. Os deputados estaduais (Gilson de Souza e Roberto Engler) também são da coligação de Serra. O federal (Marco Ubiali) é da base de apoio ao presidente Lula. É só ter vontade política. E será preciso tê-la, pois não cabe mais à Santa Casa arrumar dinheiro. </p>
<p><strong>Comércio - O senhor, então, não irá mais atrás de recursos para a instituição?<br />Trajano</strong> - Não cabe mais a mim. Cabe agora aos prefeitos e deputados. Temos um deputado federal influente, que é o Ubiali, tenho certeza de que ele olhará para a Saúde e os dois estaduais também. Outra coisa: não pode haver ciúmes entre eles. O Gilson me ajudou muito e aí o Engler se afastou. Acho que os dois têm de ajudar a Santa Casa. </p>
<p><strong>Comércio - O senhor acredita que a Santa Casa realmente pode fechar se não entrar mais recursos?<br />Trajano</strong> - Claro que sim. E seria terrível. Pegue o caso da hemodiálise: temos 150 pacientes atendidos, que se não fizerem o tratamento morrem. Como ficar sem a Santa Casa? Os outros dois hospitais da cidade não têm capacidade de assumir toda a demanda que atendemos. As prefeituras causam o déficit e têm a obrigação de cobri-lo. </p>
<p><strong>Comércio - Os dois provedores anteriores ao senhor, Amilton Borges e Sérgio Ferro, respondem na Justiça por problemas em suas gestões. O senhor teme que, no futuro, isso lhe aconteça, principalmente por causa da dívida monstruosa da fundação?<br />Trajano</strong> - Não. Agi totalmente dentro da legalidade. O empréstimo que pegamos recentemente, junto ao BNDES, de R$ 10 milhões, por exemplo, passou pelo juiz, pelo promotor, pelo curador. Não há essa possibilidade. Sempre fiz tudo dentro da legalidade e da moralidade. Saio tranqüilo. </p>
<p><strong>Comércio - Como é seu relacionamento com os médicos?<br />Trajano</strong> - Em toda a minha festão, só tive dois problemas. Foi na eleição do diretor clínico, quando agi dentro do estatuto e indiquei para o cargo o Marcelo de Paula Lima, que foi o segundo mais votado, por diferença de apenas dois votos. O Cremesp (Conselho Regional de Medicina de São Paulo) ameaçou interditar o serviço clínico do hospital, mas a Justiça me deu a razão. O outro foi quando demiti um médico (Carlos Riad) que entrou com uma ação trabalhista contra a entidade. Puxa vida, que empresa aceitaria isso? </p>
<p><strong>Comércio - E sua relação com o prefeito Sidnei Rocha?<br />Trajano</strong> - Em sua primeira entrevista, pediu para que eu continuasse na Santa Casa, mas a relação, com o passar do tempo, não foi como eu esperava. Eu contava com mais compreensão. Mas posso classificar como uma relação razoável. </p>
<p><strong>Comércio - Acha que cumpriu bem seu papel?<br />Trajano</strong> - Sim. Vou dar exemplos: o governador Serra me destacou em uma reunião com 400 provedores de Santa Casas, pediu que me levantasse e falasse sobre meu trabalho aqui. O ministro da Saúde, em outra reunião, em Brasília, também me elogiou. Eu abri os caminhos. Estou deixando uma Santa Casa com prestígio nos governos estadual e federal. Encontrei um caminho tortuoso. Tenho certeza de que deixo ela prestigiada e bem equipada.</p>
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