Os ataques sofridos pelas instituições policiais, bancos, prédios públicos, meios de transportes e até pelos cidadãos, demonstram a luta desesperada do crime organizado para não perder seus privilégios. O endurecimento no combate ao tráfico de drogas e armas, com grandes apreensões, e a atuação mais severa da polícia e do Poder Judiciário têm colocado em risco a manutenção dos negócios dos fora-da-lei. Tanto que muitas facções têm diversificado suas ações, recorrendo a assaltos, seqüestros e outros crimes que também acabam lhes oferecendo renda.
Os atentados ocorridos em São Paulo, nos meses de maio e junho, e os dos últimos dias no Rio de Janeiro têm, sem qualquer dúvida, motivação puramente econômica. Os cenários e personagens são diferenciados, mas a raiz é a mesma: a redução do lucro fácil e criminoso.
Durante muitos anos, por inúmeras razões até por políticas equivocadas os governos não fizeram a sua parte. As comunidades carentes foram abandonadas e, na falta de políticas oficiais para atender suas necessidades, acabaram cooptadas pelo crime.
No lugar da autoridade pública e oficial instalou-se em morros, favelas e bairros carentes a mão cada vez mais forte do traficante, que passa a dispor da população e a escravizá-la para atender seus interesses. O noticiário mostra que, especialmente no Rio, o povo carente agora é disputado pelos traficantes e pelas "milícias", grupos não menos criminosos constituídos por ex-policiais. O Estado omisso, que nada fez para evitar a instalação do poder paralelo dos traficantes e contraventores, também permaneceu inerte ao ver uma segunda geração de controladores ilegítimos da população surgir e guerrear com a primeira.
A iniciativa dos governadores eleitos de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo, de montar um Gabinete Estratégico de Gestão Integrada em Segurança Pública que possa agir de forma coordenada, combatendo igualmente os crimes nos quatro Estados e evitando as já conhecidas evasões de fronteiras, é das mais lúcidas. Não podemos nos esquecer, no entanto, que além dos Estados, a União também tem a obrigação de dar a sua contribuição, até porque não existe União sem Estados ou Estados sem União. Não queremos e não podemos ver a repetição do "jogo-de-empurra" verificado entre Brasilia e São Paulo por ocasião dos ataques do PCC. Cada qual que cumpra sua missão!
Que se apressem os senhores Serra, Cabral, Aécio e Hartung, antes que seus governos também caiam no marasmo e também sejam obrigados a tolerar a existência do poder paralelo e ilegítimo.
Traficantes, contraventores e "milícias", além de usurpar a função do Estado, fazem o povo sofrer, promovendo o descaminho das populações ao transformarem, principalmente os jovens, em agentes de suas ações criminosas e anti-sociais. Chegamos ao ponto em que os governos que não conseguirem readquirir o controle desses bolsões desgarrados das metrópoles, das grandes e das médias cidades, poderão se considerar falidos.
TENENTE DIRCEU CARDOSO GONÇALVES é presidente da Associação dos Policiais Militares do Estado de São Paulo (APOMI)
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